Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Manuel Bandeira_1966
Manuel Bandeira em Teresópolis, RJ, 1966


PARA MANUEL BANDEIRA
COM UM PRESENTE


Eis, páginas abertas, os teus livros.
Desejo, é claro, agradecer-te, embora
não possa esquecer de que nós dois
falamo-nos bem pouco até agora.

Dois poetas sem par, embaraçados
porque trocar palavras é difícil.
Mas como disse Joe McCarthy: "Nada
ouvi mais inaudito do que isso!"

Tradutor cada qual da língua do outro!
(Um título que julgo merecer.)
O maior, ainda jovem esculpido
em bronze e já famoso em seu mister,

a quem a fama — e Miss Brasil — sorriram!
É homem de ficar sem dizer nada
quem, galante, verteu Elinor Glyn
numa prosa bem mais sofisticada —

e pôs na boca do Tarzã, que mal
falava, certa graça do latim,
refinando o selvagem de Edgar Burroughs?
É justo que se cale alguém assim?

Não sou, no que me tange, raconteur,
sou fraca em minhas réplicas não raro;
meus amigos, porém, de língua inglesa
receio que dirão que jamais paro:

que falo e falo sempre, às vezes dias
a fio, sem dar sinal que a conversa
possa cessar, de que me conviria
trocá-la por qualquer coisa diversa.

Conversas e conversas que melaram!
Saibas porém: jamais achei que para
dizer "Teu livro é bom, eu gostei muito",
damascos sejam a expressão mais clara;

tampouco me parece que a conserva
possa implicar: "Ofuscas teus rivais"...
Não acho não, porém recebe e passa
no pão meus elogios cordiais.

Que fale ao teu estômago de poeta,
Manuel, o doce mudo — docemente.
Aceita uma vez mais minha amizade
e um pote de geléia de presente.

Elizabeth Bishop in Poesia Alheia: 124 Poemas
Traduzidos
— por Nelson Ascher. Rio de Janeiro:
Imago, 1998 (edição bilíngue) ズ


Nota d'aly:
Flora Süssekind foi quem descobriu esta carta-poema nos
arquivos de Manuel Bandeira e a localizou no tempo — ano
1955 — como se pode ler aqui,

por aly . 12:50 AM .

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

1740-Joan Crawford & Robert Montgomery
Joan Crawford e Robert Montgomery em Our Blushing Brides: dir. Harry Beaumont, 1930



DO PUDOR


O pudor proporciona prazeres muito agradáveis ao amante; faz
com que ele sinta que leis estão sendo transgredidas por ele.

E às mulheres prazeres mais embriagadores: como eles fazem
vencer um hábito poderoso, lançam maior perturbação na alma.
O conde de Valmont encontra-se à meia-noite no quarto de
dormir de uma bela mulher; isso lhe acontece todas as semanas,
e a ela, talvez, uma vez a cada dois anos; a raridade e o pudor
devem, portanto, proporcionar às mulheres prazeres infinitamente
mais intensos.

O inconveniente do pudor é que ele leva continuamente à mentira.

O excesso de pudor e sua severidade desencorajam o amor nas
almas ternas e tímidas, justamente aquelas que são feitas para
dar e sentir as delícias do amor.

Entre as mulheres ternas que não tiveram vários amantes, o pudor
é um obstáculo ao desembaraço das maneiras, é o que as faz correr
o risco de se deixarem levar pelas amigas que não têm a mesma falta
a se censurarem. Elas dão atenção a cada caso em particular, em vez
de recorrerem cegamente ao hábito. Seu pudor delicado comunica a
suas ações algo de constrangido; de tanta naturalidade, parecem não
ter naturalidade; mas essa falta de jeito tem algo da graça celeste.

Stendhal in Do Amor. São Paulo: Martins Fontes, 1993
(excertos do capítulo) ■ Tradução: Roberto Leal Ferreira ズ


"O pudor é tão necessário aos prazeres que é preciso conservá-lo
mesmo nos momentos destinados a perdê-lo". Anne Lambert,

por aly . 1:18 AM .

Sábado, Setembro 19, 2009

the-temptation-of-matthias-grunewald-2
Matthias Grünewald: A Tentação de Santo Antão, c. 1515 (detalhe) ►Musée d'Unterlinden, Colmar


NASCIMENTO

O santo, hoje em dia, vive e lê na cidade, no meio do asfalto a perder de vista,
alimentado de regime para o estômago fraco e de comidas destituídas de gosto
pela agro-indústria alimentar ou indústria farmacêutica, move-se na luz unitária
de eletricidade que impede até a noite de chegar de novo ao dia, respira só os
cheiros de gasolina de querosene e, sobretudo, não conhece nada além da escrita,
palavras-imagens que cobrem de ponta a ponta a cidade desértica, paredes, telas,
painéis, lojas, veículos, em breve, o céu, o santo enfim existe somente no verbo
que exige, para uma tal existência, ascetas que não tenham outra ciência senão a
do verbo: lógicas, mídias, gramáticas, anúncios, fórmulas, códigos... informação em
todos os sentidos, cenobitas que demonstram que o cinza da cidade e o fedor de
que se impregnam nunca os irritam mais do que as frases e a sintaxe. Vitória da
razão: o damasco já não tem outro gosto senão o da palavra que entra na boca
para dizê-lo.

A cidade é povoada de eremitas que só têm uma língua.

Daí, vivemos no meio de uma imensa e coletiva tentação de santo Antão. Para criar
uma cultura, é preciso um corpo e sentidos. A língua ou a inteligência artificial
produzem uma subcultura, por falta de corpo. O sensível reaparece, sombra teimosa,
infernal, através da abstração imposta, nas imagens e na língua, desfigurado pelo
estrago do desprezo. Sentadas nos festins, as estátuas ou robôs sonham com listas
e ícones.

Anacoretas exaustos, à noite, de trabalho formal e solitário, buscamos um sono
raro, saturados de crimes de tinta vermelha, fascinados frequentadores da gente
do poder, saciados de trepadas ginásticas, empanturrados de rega-bofes de cores
desagradáveis, de todo um banquete instantâneo, quimérico, evaporado à pressão
de um toque.

Esse subfestim perpétuo e desprezível, imaginário, aberto pela pressão linguística,
quem melhor o disse que este que assina o nome esperado: santo Antão?

Michel Serres in Os Cinco Sentidos: Filosofia dos Corpos Misturados (vol. I)
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 — tradução: Eloá Jacobina (excertos) ズ


"Nenhuma cultura atingiu o grau de ascetismo como a que hoje impõe
a chamada civilização de consumo, nosso banquete." Michel Serres,

por aly . 12:27 AM .

Domingo, Setembro 13, 2009

ODILON-REDON1
Odilon Redon: Je Vis Dessus le Contour Vaporeux d'une Forme Humaine, 1896 ►Art Institute of Chicago


DOIS MOMENTOS DE UM MESMO AMOR EM RILKE

"Mas que é daquele que já sabia? Daquele em cujo coração já se apresentava
a solidão dos amantes? Ele conhecia de antemão a pura face da amada. Ao
fugir às semelhanças familiares que o envolviam, as quais constituíam, traço por
traço, um direito sobre ele, o semblante dela veio a se tornar o seu próprio futuro;
através dos olhos dela, comtemplava o aberto.

"A sua pequena mão pousava calmamente sobre a dela, a qual o conduzia e jamais
dele se apossava. Enquanto crescia, ia ele distinguindo mais e mais a sua alta figura
— naquele tempos ela por vezes aparecia e o examinava como se fosse um dardo de
arremesso.

"E mais tarde, arremessou-o.

"Ah, com que poderia a amante surpreender aquele que, mais do que uma
recordação, tinha a clara consciência disto: desta escolha; a volúpia do braço
que se estende, o ser arremessado — oh, e o tremor ao atingir o alvo."

▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒

"De que serviu saber que eu só podia estar feliz e comovido em meu trabalho?!
E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi
à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de
mim mesmo.

"Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para
o lugar mais perto de ti — por mais aí que ele seja grande, sensível jubiloso, ou
timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração de minha vida.

"Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me
que podias abarcar todos os tipos de amor para mim. Ah, controla-te, ......,
resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida,
fortalece-me como pode.

"Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me
atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse,
terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que
terias, não a mim."

In Rainer Maria Rilke. Testamento. São Paulo: Globo, 2009
Prefácio de Helmut Galle. Tradução: Tercio Redondo
(2 fragmentos) ズ


"Rosa, ó contradição pura, volúpia
de ser o sono de ninguém sob tantas
pálpebras". Epitáfio de Rilke em sua
sepultura,

por aly . 5:15 AM .

Domingo, Setembro 06, 2009

MILU-ANITA-PAGE2
Anita Page*: Photo by George Hurrell © MPTV, 1932


MI LUMÍA

Mi Lu
mi lubidulia
mi golocidalove
mi lu tan luz tan tu que me enlucielabisma
y descentratelura
y venusafrodea
y me nirvana el suyo la crucis los desalmes
con sus melimeleos
sus eropsiquisedas sus decúbitos lianas y dermiferios limbos y gormullos
mi lu
mi luar
mi mito
demonoave dea rosa
mi pez hada
mi luvisita nimia
mi lubísnea
mi lu más lar
más lampo
mi pulpa lu de vértigo de galaxias de semen de misterio
mi lubella lusola
mi total lu plevida
mi toda lu
lumía

Oliverio Girondo in Obra Completa. Madrid; Barcelona; Lisboa;
Paris, México (DF); Buenos Aires; São Paulo; Lima; Guatemala;
San José; Santiago de Chile: ALLCAXX, 1999. Raúl Antelo (org.)


Oliverio e Norah

Tive ontem o prazer de abraçar no Hotel Natal dois grandes amigos
argentinos que nos visitam — Oliverio Girondo e Norah Lange. Duas
criaturas unidas em doce pausa de compreensão e amor, o perfeito
ponto-e-vírgula: Oliverio Girondo o ponto, Girondo rotundo a começar
pelo nome, Girondo, ironicamente emboscado em suas barbas "para
dissimular sua eloquência", Girondo redondo, não à maneira mole do
pingo de óleo acomodatício, mas como a ponta do buril que fixa na
placa as linhas essenciais do mundo e da vida; Norah, a vírgula
completando, submissamente feminina, a luz de inteligência,
preservando em poesia as surpresas encantadoras da infância.

A Manhã, 7 de agosto de 1943

In Manuel Bandeira. Crônicas Inéditas 2
São Paulo: CosacNaify, 2009 (fragmento) ズ


* Bisbilho:
"Ms. Page was once promoted as 'the girl with the most beautiful
face in Hollywood,' and the vivacious, golden-haired actress claimed
at the peak of her fame in the late 1920s to have received
marriage proposals by mail from Italian dictator Benito Mussolini".
By Adam Bernstein, Washington Post, Monday, September 8, 2008,

por aly . 12:10 AM .

Sábado, Setembro 05, 2009


Thomas Bernhard em foto de Erika Schmied, 1978


3 PEQUENAS NARRATIVAS DE THOMAS BERNHARD


Hotel Waldhaus

Não demos sorte com o clima e, à nossa mesa, sentaram-se
convidados repugnantes em todos os aspectos. Até nosso gosto
por Nietzsche conseguiram estragar. Mesmo depois do acidente
automobilístico fatal, quando seus corpos jaziam nos caixões na
igreja de Sils, nosso ódio por eles ainda persistia.


Cuidado

Um funcionário do correio acusado de ter assassinado uma mulher grávida
declarou no tribunal não saber porque havia matado a grávida, mas que
havia matado sua vítima tão cuidadosamente quanto possível. A toda
pergunta do juiz, ele sempre respondia com a palavra cuidadosamente,
motivo pelo qual o processo contra ele foi arquivado.

Demais

Um pai de família querido e famoso fazia décadas por seu dito senso familiar
extraordinário
e que, num sábado à tarde, quando por certo o tempo estava
muito abafado, matou quatro dos seus seis filhos, justificou-se no tribunal
alegando que, de repente, os filhos haviam se tornado demais para ele.


In O Imitador de Vozes. São Paulo: Cia das Letras, 2009
Tradução: Sergio Tellaroli ズ


"Diferentes maneiras de olhar uma maçã: a do menino, obrigado
a esticar o pescoço para ver em linha reta a maçã em cima da
mesa, e a do dono da casa que pega na maçã e a estende
livremente ao seu conviva". Franz Kafka in Meditações,

por aly . 7:55 PM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





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14 novembro 2002



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