Terça-feira, Março 31, 2009 Foto-estúdio de Iodeyo Mayami: Garota de Ipanema, 1966
Zé da Farmácia: 1910-1972 - Farmacêutico (verbete)
Ele se postava à porta da farmácia (qualquer uma das muitas em que trabalhou em
Ipanema) e, quando um dos grandes aviões passava na calçada, comentava
gaiatamente com algum amigo: "Já espetei muito essa bundinha". E não estava
mentindo, em seus quase quarenta anos como farmacêutico em Ipanema, desde 1934,
Zé da Farmácia (seus clientes nunca o conheceram pelo nome verdadeiro) espetou os
bumbuns mais premiados do Brasil – quando suas donas ainda estavam na idade de
levar injeção na nádega. Espetou também os de homens futuramente famosos, mas
esses ele não se preocupava em recensear.
Aos marmanjos Zé da Farmácia prestava outro tipo de serviço, de primeira necessidade
no bairro: ressuscitava-os dos monumentais porres com um coquetel injetável, inventado
por ele. Compunha-se de complexo vitamínico, um antidepressivo e um antitóxico para o
fígado. A esse coquetel reconstituinte submeteram-se, durante décadas, Antonio Carlos
Jobim, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Roniquito de Chavalier, Zequinha Estelita,
Hugo Bidet, os alunos de Sinhozinho – ah, ponha logo aí: toda Ipanema.
O coquetel devia funcionar porque Zé da Farmácia (ele próprio um bebum da primeira
divisão) o aplicava em si próprio.
Ruy Castro in Ela é Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema.
São Paulo: Cia das Letras, 1999.
"Com o galope espumacento das ondas em frente, a convulsão de titãs petrificados
dos montes ao fundo e a atmosfera de névoa - pela primeira vez vimos uma daquelas
paisagens de Shelley, em que a natureza parece findar-se no inebriamento espiritual
de sua própria luxúria". João do Rio ao descortinar do Arpoador - acompanhado de
Isadora Duncan - a praia de Ipanema em 1916,
por aly . 1:23 AM . Quarta-feira, Março 25, 2009 Arte de Giorgio Lacani: Inteligência Artificial, 2009
SOUBE QUE VOCÊS NADA QUEREM APRENDER
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – à sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Você nada precisa aprender. Assim como é
Pode ficar.
Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Você tem seus líderes, que lhe dizem exatamente
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Você não precisa levantar um dedo.
Sem dúvida, se fosse diferente
Você teria que aprender.
Ouçam esta canção, Mack the Knife, com música de Kurt Weill
e letra de Brecht, tocada e cantada por Louis Armstrong, aqui,
por aly . 8:11 AM . Quarta-feira, Março 18, 2009 Foto de Ira Chernova: Certain Shade of Red, 2009
"Alguma coisa está dilacerada, aquilo continua a estar muito
presente e torna-se ausente. É nesse esquartejamento, entre
uma extrema presença e uma extrema ausência, que consiste
a dor". J.-D. Nasio in La douler d'aimer,
por aly . 12:41 AM . Quarta-feira, Março 11, 2009 Fuck You por Marion Peck, óleo s/tela, 2008
A PROSA DE VALÉRY
"Valéry dizia que jamais produziria um romance por se
recusar a escrever uma frase como 'A Marquesa saiu
às cinco da tarde'.
"Ocorre que se a Marquesa não sai de tarde, ela não
pode morrer na página 396".
Na página 15 da narrativa A Noiva Roubada (in 47 Contos de Juan Carlos Onetti.
São Paulo: Cia das Letras, 2006):
"Moncha Insaurralde saía quase diariamente de sua casa,
de táxi ou no Opel, sempre vestida com o cheiro e o aspecto
de eternidade (...)".
Na página 18 do mesmo conto é narrada a morte da
protagonista:
"Porque Moncha Insaurralde se encerrara no porão de sua
casa, com alguns – mas não suficientes – barbitúricos, com
seu vestido de noiva que podia servir-lhe, na placidez velada
do sol do outono santa-mariense, como pele verdadeira para
envolver seu corpo magro, seus ossos harmônicos. E começou
a morrer, cansou-se de respirar." J. C. Onetti,
por aly . 2:07 AM . Sábado, Março 07, 2009 Animation video by Christina Menezes, over Alberto Lyra's poem :::: English version by Olga Raphaelli Soto
SALPICAR
Revolver o revolto
reinventando récuas
de rostos sem rastros
de rima e rímel.
Desenovelar o novelo
novela de cantos sem reverso.
Desencantar os cantos obscuros
Inverter a invenção do verso.
Penetrar, picar, com plúmbeos projéteis
o passado de pesados passos.