Quinta-feira, Novembro 29, 2007


Graciliano Ramos na Livraria José Olympio: Rio de Janeiro,1942


Quando lançou seu primeiro livro em 1946, o crítico literário
Wilson Martins foi à Ouvidor 110 entregar um exemplar com
dedicatória a Graciliano, que imediatamente tirou um pente
do bolso e começou a abrir as páginas. Wilson exultou,
atribuindo a iniciativa ao vivo interesse que sua obra
despertara em um dos escritores que mais admirava.
Alguns minutos depois, Graciliano fez uma pausa,
levantou os olhos e pôs fim à alegria do autor.

- Há pouco tempo, passei por um grande constrangimento.
Um amigo meu, escritor, foi a minha casa, pegou um livro
seu na estante e verificou que estava fechado. Desde
esse dia abro todas as páginas de qualquer exemplar
que recebo – disse.

E continuou a abrir o livro, sem mais palavra.

No livro de Lucila Soares:
Rua do Ouvidor 110: Uma História da Livraria José Olympio.
Rio de Janeiro: José Olympio/Biblioteca Nacional, 2006.


De Graça & de Outros da Livraria J.O


Graciliano Ramos e Joel Silveira:

Joel conheceu a livraria por apresentação de Jorge Amado "onde chegou
cerimonioso, chamando os poucos escritores com quem se atrevia a falar
de 'seu fulano', 'o senhor'. Foi nesses termos que, algum tempo depois
de aparecer por lá quase todos os dias, dirigiu-se a Graciliano para, enfim,
lhe mostrar um conto de sua autoria."

"Graciliano leu, leu, leu, passou página, leu mais. Quando terminou rasgou
o texto em pedacinhos. Parecia confete. Não fez comentário algum sobre
o que havia lido. Quebrou o silêncio com um convite:

- Vamos tomar uma cachacinha?"


Sérgio Buarque de Holanda e Carlos Drummond de Andrade:

"Sérgio tinha uma namorada que trabalhava com Drummond,
no gabinete do Ministério da Educação. Um belo dia a moça
teve a infeliz idéia de lhe dizer que estava sendo assediada
pelo chefe.

"Se era verdade ou invencionice para provocar ciúmes, nunca
se ficou sabendo. O fato é que Sérgio acreditou e foi tomar
satisfações com Drummond. Os dois acabaram rolando pelo
chão, numa briga que teve de ser apartada."


José Lins do Rego:

"Zé Lins era brincalhão, adorava implicar com os amigos.
Mais de uma vez apoderou-se do uísque de algum deles,
sempre com o mesmo argumento:

- O álcool é inimigo do homem. Amigo meu não bebe.
Dá cá esse uísque."

"O traço de união entre eles (Graça e Zé Lins) era o gosto
pela bebida. Graciliano preferia a cachaça mesmo, enquanto
Zé Lins era mais eclético. Ia da cachaça ao uísque sem
nenhum problema, e gostava muito de cerveja."

In Lucila Soares, no livro supracitado,

por aly . 4:18 AM .

Sábado, Novembro 24, 2007


Michael Bastow: pastel, s/t


Da série O Artista & Seu Modelo, nº 5,

por aly . 7:50 PM .

Quinta-feira, Novembro 15, 2007


Ilustração de Ben Lawson: My Big Octopus Heart


Le poulpe

Jetant son encre vers les cieux,
Suçant le sang de ce qu'il aime
Et le trouvant délicieux,
Ce monstre inhumain, c'est moi-même.

Guillhaume Apollinaire:::Le Bestiaire ou Cortège d'Orphée (1911)


O polvo

Jorrando seu veneno pelo céu,
Sorvendo o sangue de quem ama
E achando-o um pitéu,
Esse monstro sou eu, lama humana.


Tradução de Alberto Lyra, com toques fatais,
arabizados, por Vadim Niktin & postado neste
blogzona, sempre zonado,

por aly . 6:00 AM .

Quinta-feira, Novembro 08, 2007




A DESSUBLIMAÇÃO REPRESSIVA

O sujeito burguês liberal reprime os seus desejos inconscientes
através de interdições interiorizadas, e o resultado é que seu
auto-controle lhe permite dominar a sua “espontaneidade”
libidinal.

Nas sociedades pós-liberais, todavia, a repressão social já não
intervém sob a aparência de uma Lei ou Proibição interiorizada,
exigindo renúncia e autocontrole; reveste-se antes da forma de
uma instância hipnótica, impondo a atitude de “ceder à tentação”
– quer dizer que a sua intimação equivale à ordem: “Goza!”.

O gozo imbecil em causa é prescrito pelo meio social, que inclui
a psicanálise anglo-saxônica cujo objetivo principal é tornar o
paciente capaz de prazeres “normais”, “saudáveis”.

A sociedade exige que permaneçamos adormecidos numa espécie
de transe hipnótico, de um modo geral imposto sob a aparência do
imperativo oposto: “O grito de batalha nazi ‘Desperta, Alemanha’
oculta precisamente o seu oposto”.*

*T. W. Adorno: Freudian Theory and the Pattern of Fascist Propaganda,
apud The Culture Industry:Selected Essays on Mass Culture. London:
Routledge, 1991, p. 132.


In Slavoy Žižek. As Metástases do Gozo: Seis Ensaios Sobre
a Mulher e a Causalidade
. Lisboa: Relógio D’Água, 2006

É preciso mudar o jogo, e não as peças do jogo.", André Breton,

por aly . 3:36 AM .

Quinta-feira, Novembro 01, 2007

NO ESCURINHO DO CINEMA




Na tela: Blade Runner de Ridley Scott, 1982


Na platéia: Bolinação

"Havia sempre o risco de um escândalo, de um rebuliço, de um protesto irado que atraísse
a presença do lanterninha, do gerente, do dono do cinema, da polícia e sabe Deus quem
mais. Mas isso nunca me aconteceu, apesar de ter ocorrido no Rialto um quase-
desvendamento extremado: ao ser tocada, uma mulher provocou um verdadeiro motim
e as luzes foram acendidas - para descobrir o possível espectador a quem estaria
faltando um pé de sapato.

"O mistério quase criminal do homem sem sapato desvenda-se facilmente se eu explicar
que uma das técnicas dos bolinadores (ainda que não era isso, o simples contato, o
que eu buscava no escuro era somente amor, o amor, esse vencedor conquistado) em
cinemas era enfiar, por detrás, o pé descalço no espaço entre o espaldar e o assento
de uma poltrona, atingindo assim as fofas nádegas espremidas contra a madeira dura."

Nota d'aly: O que está entre parêntese no segundo parágrafo, e assim está no original
(Cabrera Infante. La Habana Para un Infante Difunto. Barcelona: Seix Barral, 1979), foi
incluído por mim - este trecho que foi suprimido na tradução brasileira. Achei relevante
inserir este fragmento pela confissão do autor/narrador de ser ele também um bolinador,
não somente um espectador das bolinações alheias: um bolinador amoroso.


En libro de G. Cabrera Infante. Havana Para um Infante Defunto.
Companhia das Letras: São Paulo, 1987.
Tradução de João Silvério Trevisan

"A imaginação é faculdade que associa e estende pontos entre um objeto e outro;
por isso é a ciência das correspondências." Octavio Paz,

por aly . 12:54 AM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





Desde
14 novembro 2002



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