Terça-feira, Junho 26, 2007


Ilustração de Anthony Ventura: Light Bright, 2006


SALPICAR

Revolver o revolto
reinventando récuas
de rostos sem rastros
de rima e rímel.

Desenovelar o novelo
novela de cantos sem reverso.
Desencantar os cantos obscuros
Inverter a invenção do verso.

Penetrar, picar, com plúmbeos projéteis
o passado de pesados passos.

aly. Opera Mínima: Fonografias (no preprelo)


“A fé poética é uma suspensão voluntária da incredulidade.” S. T. Coleridge

por aly . 7:12 AM .

Quarta-feira, Junho 20, 2007




PRIMEIRA CANÇÃO DO BECO


Teu corpo dúbio, irresoluto

De intersexual disputadíssima,

Teu corpo, magro não, enxuto,

Lavado, esfregado, batido,

Destilado, asséptico, insípido

E perfeitamente inodoro

É o flagelo de minha vida,

Ó esquizóide! ó leptossômica!


Por ele sofro há bem dez anos

(Anos que mais parecem séculos)

Tamanhas atribulações,

Que às vezes viro lobisomem.

E estraçalhado de desejos

Divago como os cães danados

A horas mortas, por becos sórdidos!


Põe paradeiro a este tormento!

Liberta-me do atroz recalque!

Vem ao meu quarto desolado

Por estas sombras de convento,

E propicia aos meus sentidos

Atônitos, horrorizados,

A folha-morta, o parafuso,

O trauma, o estupor, o decúbito!


Manuel Bandeira: Duas Canções do Tempo do Beco
in Estrela da Vida Inteira.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1979

Amar-amaro,

por aly . 5:08 AM .

Quinta-feira, Junho 14, 2007


Henri Matisse: Mulher a Ler, óleo s/ tela, 1897


CONSELHO À ATRIZ C. N.

Refresca-te, irmã, na água
Da pequena tigela de cobre com pedacinhos de gelo -
Abre os olhos sob a água, lava-os -
Enxuga-te com a toalha áspera e lança
Um olhar num livro que amas.
Começa assim
Um dia belo e útil.

Bertolt Brecht in Poemas: 1913-1956.
São Paulo: Editora 34, 2006
Tradução de Paulo César de Souza


O Livro é melhor do que a Internet, e bem melhor
do que qualquer blog, logo, vamos ao livro,

por aly . 8:57 PM .

Quinta-feira, Junho 07, 2007

NEW YORK, NEW YORK...


Casal de universitários novaiorquinos no Central Park, 2006

Nova York nasceu em uma vastidão de terras desocupadas, isto é,
seu desenho antecedeu à povoação; ao invés de olhar as estrelas,
seus construtores consultaram os bancos. Discorrendo
genericamente a respeito do sistema reticulado, Lewis Munford
disse que "o capitalismo ressurgente do século XVII tratou terrenos,
quarteirões, ruas e avenidas como unidades abstratas destinadas à
compra e venda, desconsiderando os usos históricos, as condições
topográficas ou as necessidades sociais."

A absoluta uniformidade dos lotes - em tamanho e preço - sinalizava
a equiparação do valor da terra ao do dinheiro. Nos primeiros e mais
felizes dias da República, as notas de dólar só eram impressas quando
os banqueiros precisavam de numerário; via de conseqüência, o
suprimento de terras aumentava com a extensão do território,
conforme a especulação.


NY: Homeless, 2006

Num período de sessenta anos, por exemplo, as grandes mansões da Quinta Avenida,
de Greenwich Village ao alto do Central Park foram construídas, habitadas e destruídas,
cedendo lugar a edificações mais altas. Hoje, apesar de já se cuidar da preservação do
patrimônio histórico, os arranha-céus são planejados para durar cinqüenta anos e
financiados de acordo com essa duração estimada, conquanto sejam obras de
engenharia capazes de conservar-se por muito mais tempo.

De todas as cidades do mundo, Nova York foi a que mais cresceu a custa de demolições.
Daqui a cem anos, as pessoas terão evidências mais tangíveis da Roma de Adriano do
que da grande metrópole da fibra ótica.

Richard Sennett: Corpos Cívicos in Carne e Pedra: O Corpo & a Cidade
na Civilização Ocidental
. Rio de Janeiro: Record, 2006. (excertos)


"Se o problema das drogas não sensibiliza os moradores, menos estranheza
ainda causam os sem-teto. Estima-se que no centro de Nova York, durante
o verão, para cada duzentas pessoas exista uma sem moradia, índice superior
ao de Calcutá e abaixo do Cairo. No Village eles dormem nas ruas perto de
Washington Square, o mais distante possível da rota das drogas."
Richard Sennett, no livro supracitado,

por aly . 3:41 PM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





Desde
14 novembro 2002



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