Quinta-feira, Agosto 31, 2006


Graham Seidman##Auto-Retrato


Eu Sou Trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Mário de Andrade##Poesias Completas.
São Paulo: Círculo do Livro, 1976

Da & à Blogolândia/Br,

por aly . 1:06 AM .

Sábado, Agosto 26, 2006


Julian Murphy: Fôrma


Nota d'aly: O Aurélio diz que é fôrma, O Houaiss
diz que é que é forma; o dicionário do Antenor
Nascentes (1967), antes da Reforma Ortográfica
(1971), Dicionário da Academia Brasileira de
Letteri, confirma a grafia acima. Calaro!
Vai saber!!!

por aly . 3:48 PM .

Terça-feira, Agosto 22, 2006


Kenji Mizoguchi: Chikamatsu Monogatari, 1954


Conto e Cura

A criança está doente. A mãe a leva para a cama e se senta
ao lado. E então começa a lhe contar histórias. Como se deve
entender isso? Eu suspeitava da coisa até que N. me falou do
poder de cura singular que deveria existir nas mãos de sua
mulher. Porém, dessas mãos ele disse o seguinte:

- Seus movimentos eram altamente expressivos. Contudo, não
se poderia descrever sua expressão... Era como se contassem
uma história.

A cura pela narrativa, já a conhecemos das fórmulas mágicas
de Merseburg. Não é só que repitam a fórmula de Odin, mas
também relatam o contexto no qual ele as utilizou pela primeira
vez.

Também já se sabe como o relato que o paciente faz ao médico
no início do tratamento pode se tornar o começo de um processo
curativo. Daí vem a pergunta se a narração não formaria o clima
propício e a condição mais favorável de muitas curas, e mesmo
se não seriam todas as doenças curáveis se apenas se
deixassem flutuar para bem longe - até a foz - na correnteza da
narração.

Se imaginamos que a dor é uma barragem que se opõe à
corrente da narrativa, então vemos, claramente, que é rompida
onde sua inclinação se torna acentuada o bastante para largar
tudo o que encontra em seu caminho ao mar do ditoso
esquecimento.

É o carinho que delineia um leito para essa corrente.

Walter Benjamin: Imagens do Pensamento,
in Obras Escolhidas II: Rua de Mão Única.

São Paulo: Brasiliense, 1987.
Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho
& José Carlos Martins Barbosa

"Nenhum artista suporta o real." Nietzsche,

por aly . 2:18 PM .

Segunda-feira, Agosto 14, 2006


Whirligig: Black Man Swatting at a Large Bug, polychromed wood and tin 19th century


ARAMAICO

Amar é arte:
Equilibrar-se
No arame arcaico.

aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)

"A chave da vida não é a riqueza da experiência de vida,
mas a capacidade de tirar conclusões." Grotowski,

por aly . 5:04 PM .

Terça-feira, Agosto 08, 2006


La Dame à la Licorne: tapeçaria do séc. XV, Musée
de Cluny, Paris (detalhe)



IV

Este é o animal que não existe.
Eles não sabiam e em todo caso
amaram-no - o andar, a postura,
o pescoço, até a luz do calmo olhar.

Certo que não existia. Mas porque o amavam,
nasceu um bicho puro. Deixavam sempre espaço.
E neste espaço claro e reservado
ergueu a fronte leve e apenas precisava

de existir. De nenhum grão o sustentaram,
sempre só com a possibilidade de existir.
E esta deu ao bicho tanta força

que expeliu da fronte um corno. Um corno.
Branco se aproximou de uma donzela -
e no espelho argênteo ficou e dentro dela.

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu
in Poemas, As Elegias de Duino e
Sonetos a Orfeu
. Porto: O Oiro do Dia, 1983.
Tradução de Paulo Quintela.

Jehan Gobelin, gobelins, gobelinos,

por aly . 2:15 AM .

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

NO ESCURINHO DO CINEMA




Na tela: Blade Runner de Ridley Scott, 1982


Na platéia: Pegação

"Havia sempre o risco de um escândalo, de um rebuliço, de um protesto irado que
atraísse a presença do lanterninha, do gerente, do dono do cinema, da polícia e
sabe Deus quem mais. Mas isso nunca me aconteceu, apesar de ter ocorrido no
Rialto um quase-desvendamento extremado: ao ser tocada, uma mulher provocou
um verdadeiro motim e as luzes foram acendidas - para descobrir o possível
espectador a quem estaria faltando um pé de sapato.

"O mistério quase criminal do homem sem sapato desvenda-se facilmente se eu
explicar que uma das técnicas dos bolinadores (ainda que não era isso, o simples
contato, o que eu buscava no escuro era somente amor, o amor, esse vencedor
conquistado) em cinemas era enfiar, por detrás, o pé descalço no espaço entre o
espaldar e o assento de uma poltrona, atingindo assim as fofas nádegas espremidas
contra a madeira dura."

G. Cabrera Infante. Havana Para um Infante Defunto.
Companhia das Letras: São Paulo, 1987.
Tradução de João Silvério Trevisan

Nota de aly: O que está entre parêntese no segundo parágrafo, e assim está no original
(Cabrera Infante. La Habana Para un Infante Difunto. Barcelona: Seix Barral, 1979), foi
incluído por mim; este trecho que foi suprimido na tradução brasileira. Achei relevante
inserir este fragmento, pela confissão do autor/narrador de ser ele também um bolinador,
não somente um espectador das bolinações alheias: um bolinador amoroso.


"A imaginação é faculdade que associa e estende pontos entre um objeto e outro;
por isso é a ciência das correspondências." Octavio Paz,

por aly . 1:44 AM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





Desde
14 novembro 2002



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