Domingo, Outubro 30, 2005
Foto de John Gutmann: Face Behind Veil, 1939
DOS OLHARES
De quem?: "Um só olhar desencadeia uma paixão,
um assassinato, uma guerra".
A força que irrompe do olho.
Montar um filme é ligar as pessoas umas às outras
e aos objetos pelos olhares.
Duas pessoas que se olham dentro dos olhos não
vêem seus olhos mas seus olhares. (Razão pela qual
nos enganamos sobre a cor dos olhos?)
"Maneira de falar visível" dos corpos, dos objetos, das
casas, das ruas, das árvores, dos campos.
Criar não é deformar ou inventar pessoas e coisas.
É estabelecer entre pessoas e coisas, que existem
e tais como elas existem, novas relações.
Robert Bresson in Notas Sobre o Cinematógrafo.
São Paulo: Iluminuras, 2005.
A falta do olhar na rede, sobretudo no blogomondo, é privação
que alarga a clivagem originária, amplia "a refenda, para usar o
termo escolhido por Lacan, e mascara, pois, o sujeito a si mesmo
nos enunciados que profere sobre si e sobre o mundo. Mais
ainda, nos diz Lacan, o sujeito faz no discurso a prova de sua
falta de ser; pois aí, ele e seu desejo são apenas representados."
"Procurará no imaginário de outrem, com quem se identificará,
a verdade sobre si que a linguagem malogra em lhe fornecer."
Entre aspas, Anika Lemaire in Jacques Lacan: Uma Introdução -
com grifo em negrito da autora,
por aly . 6:39 AM .
Terça-feira, Outubro 25, 2005
João Guimarães Rosa
ZÔO ESTÓRIAS
"Se todo animal inspira sempre ternura,
que houve, então, com o homem?"
João Guimarães Rosa: Ave, Palavra
O ganso é uma tendência: seu andar endomingado, pé-não-ante-pé, bi-oblíquo,
quase de chapéu - reto avante a esmo.
A cigarra cheia de ci.
Elefante: ele sabe onde tem o nariz.
O cômico na avestruz: tão cavalar e incozinhável, tenta assim mesmo levitar-se.
O nobre na avestruz: seu cômico (o perseverar no dito - indício de teimosa
inocência, isto é, de caráter).
Duas zebras brigam: se atiram contra e contra, empinadas - e tudo zás, zás,
são relâmpagos.
O arrebol de um pavão.
O dromedário apesar-de. O camelo, além-de. A girafa, sobretudo.
Com alguns, porém, não tenho sorte: a hiena rajada, por exemplo, é uma que
comiga dificilmente.
O macaco: homem desregulado. O homem: vice-versa; ou idem.
Só não existe remédio é para a sede do peixe.
Uma borboleta tirita.
AVISTA-SE o grito das araras.
O esquilo quase bípede.
Retifique-se: o esquilo, bípede.
Os corvos, tantamente cabeçudos, xingam o crasso amanhã com arregritos.
O caracol se assoa, nariz a dentro.
Perdoar a uma cascavel: exercício de santidade.
Há também o riso do crocodilo.
Dona Doninha: "Dame Belette" dorme sozinha.
O cisne cisna. O cisne sem ledices.
Um pingüim: em pé, em paz, em pose.
Notas de Guimarães Rosa em passeios por zoológicos
e aquários in Ave, Palavra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
"Mas, na mesma botada, puja a definição de 'rede': -
'Uma porção de buracos, amarrados com barbante...'
- cujo paradoxo traz-nos o ponto-de-vista do peixe."
JGRosa: Aletria e Hermenêutica in Tutaméia,
por aly . 4:38 PM .
Quinta-feira, Outubro 20, 2005
Foto de Wladimir Kalinin
Laranja madura
De Ataulfo Alves,
com Ataulfo Alves & suas Pastoras
Você diz
Que me dá casa e comida
Boa vida e dinheiro pra gastar
O que é que há, minha gente
O que é que há
Tanta bondade
Que me faz desconfiar
Laranja madura
Na beira da estrada
Tá bichada, Zé
Ou tem marimbondo no pé
Santo que vê muita esmola
Na sua sacola
Desconfia
E não faz milagres, não
Gosto da Maria Rosa
Quem me dá prosa
É Rosa Maria
Vejam só que confusão
Laranja madura
Na beira da estrada
Tá bichada, Zé
Ou tem marimbondo no pé
Pois é... "Ataulfo contou que o pintor Pancetti, 'seu irmão de arte', gostou
tanto da música que pintou um quadro inspirado nela e ofereceu-o a Ataulfo.
Este, emocionado, compôs Lagoa Serena, dedicando-a a Pancetti. Inspirado,
Pancetti pinta Lagoa Serena e escreve a Ataulfo dizendo que a tela, por direito
e justiça lhe pertence. A partir daí, os dois grandes artistas estabeleceram
sólida amizade", aqui.
Pancetti & Ataulfo são cultuados
por aly . 3:07 PM .
Quarta-feira, Outubro 05, 2005
aly: Traçado Autobiográfico II (1922-1932)
Mylène Demongeot circa 1955
Fui a Paris em janeiro 1922 com o grupo formado
por Pixinguinha, os Oito Batutas, onde nos esperava
o grande Duque, dançarino de maxixe, meu mestre.
Por essa época eu dançava, mas não me apresentei
no Sherazade com o Duque; fui como assistente de
camarim e palco pois era menor de idade.
Eles voltaram ao Brasil em julho do mesmo ano.
Eu fiquei em Paris: fui 'adotado' por uma corista
que por lá se apresentava. De corista em corista,
em 1926 eu estava enamorado por Milène, com
quem fiquei por 2 anos, até 1928.
Ela trotoava em St. Germain, eu dançava em
cabarés de penúltima. Fiquei nesta vida até
1930, data em que começo o traçado.
Em 1932, em pleno falhanço paulista, Milène
mandou-me correspondência na qual mencionava
uma criança, Mylène Demongeot, que eu havia tido
com ela. Sei não.
por aly . 5:45 AM .
|