Quarta-feira, Agosto 31, 2005


Ilustração de Poty para o Grande Sertão: Veredas


Isto aqui é sertão?

- Não senhora. A bão, pra muitos lugar pra lá (apontando)
quer dizer que aqui já é sertão, né? Mas lá, já falam que
sertão já é pra lá (apontando mais longe), doutro lado do
Paraopeba. O outro lado do Paraopeba, aí é que nasce,
encontra com o sertão, né? Quer dizer que sertão, quer
dizer que é um lugar desdeixado. Já eles lá, num acha que
é desdeixado, né? Eles acha que desdeixado é mais pra lá;
assim vai indo toda a vida.


Depoimento colhido por Teresinha Souto Ward
em pesquisa pelo sertão de Minas Gerais, no seu
livro: O Discurso Oral em Grande Sertão: Veredas.
São Paulo: Duas Cidades- INL, 1984.


Nota de repulsa: as ilustrações de Poty,
artista que ilustrou todos os livros de G. Rosa
até o póstumo, Tutaméia - outrora editados pela
José Olympio -, ilustrações orientadas por Rosa,
discutidas e decididas pelos dois, foram
expurgadas na edição da O.C. pela Nova Fronteira.
Ninguém reclama, protesta, lamenta ou chora!

"O sertão está em toda parte ... O sertão é do tamanho do mundo...
O sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto tudo certo... Sertão:
é dentro da gente." João Guimarães Rosa Rosa em GS:V,

por aly . 2:06 PM .

Domingo, Agosto 28, 2005


Foto de Heinz Hajek-Halk: Sensuality Close-up, c.1930


3 Mulheres de Murilo Mendes


Mulheres: virgens, prostitutas, namoradas, sibilas,
esposas, mães, noivas, amantes, preparai vossos corpos,
vossos decotes, vossos carinhos, vossas traições, vossos
mistérios; preparai vossas amigas e vossos descendentes:

O grande poeta irá dizer a palavra definitiva da consolação.

Murilo Mendes, Vigília (Dispersos)



CÉLIA

Tu és uma criatura desmembrada do infinito; Deus te experimenta,
te aproxima e te retira ao mesmo tempo da pirâmide das grandezas.

Que alma complexa! Não tens amor à vida. Tuas personalidades se
deslocam de ti mesma - e tu as presides como uma deusa.

Queres tudo e não queres coisa alguma. Tuas ações não se situam
no plano comum da humanidade. Destrói sem cessar. Quem te ama
terá fome e sede eternamente.

Teu corpo é a luz de minhas madrugadas. Teu corpo é a fronteira da
renúncia. É preciso quebrar as leis dos humanos.


VANDA

À medida que vais andando nascem auréolas nos teus seios.

Confabulas com as estátuas - uma certa constelação te espera -
alimentarás o noivo da tempestade.

Em que época se deu tua queda? Jamais poderás recompor teus cadernos
de caligrafia. És órfã de Deus. Queimaste o retrato do teu esposo. Nada do
que é natural te é familiar. Eu preciso de ti como a experiência da poesia
do desespero. Nascerá de nós - quem sabe - o poema da alucinação
definitiva.


ELEANORA

Tu só me amas porque ainda não encontraste o Cristo.

Não tens pai, nem mãe, nem irmãos.
És órfã de ti mesma - tua solidão não te basta - porque ainda não te
conheces bem.

Procuras em mim teu pai, tua mãe, teu irmão e teu marido - tua biografia.
Eu te descreverei teu corpo e te apresentarei à tua alma.

Dilatarás imensamente tuas possibilidades de vida - até o dia em que não
mais te bastarei - e invocarás então o Cristo.

Já sei - o nosso amor vai acabar na Cruz.


Murilo Mendes: Dispersos - Poemas em Prosa (1935-1936)
in Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

Rodando no pick-up:::Coltrane For Lovers,

por aly . 2:05 AM .

Quinta-feira, Agosto 25, 2005


o reco-reco


Re-percussão

O reco-reco:
um eco de erres.

aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)

por aly . 5:19 PM .

Terça-feira, Agosto 23, 2005


Salvelio Meyer: Procesiones y Trancisiones: Salamanca, 2001


OS TABUS, destroçados,
e as andanças aduaneiras entre eles,
úmidos mundos, em
busca de sentido, na
fuga do
sentido.


Paul Celan. Poemas II
in Hermetismo e Hermenêutica:
Introdução, tradução, comentários
e organização de Flávio Kothe.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.

por aly . 1:54 PM .

Quinta-feira, Agosto 18, 2005


Emilie Harvey-Zeug: The Family History, 1999 (acrílico s/ tela)


Os mortos

Na ambígua intimidade
que nos concedem
podemos andar nus
diante de seus retratos.
Não reprovam nem sorriem
como se neles a nudez fosse maior.

Carlos Drummond de Andrade in Lição de Coisas.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

por aly . 9:05 PM .

Segunda-feira, Agosto 15, 2005

GROUCHO MARX


Groucho em Uma Noite em Casablanca, 1946


Ben Hecht tocava violino com entusiasmo de amador e decidiu organizar o que
chamava de Ben Hecht Symphonietta, a qual se reunia para concertos toda
quinta-feira à noite em sua casa, numa colina. Ele recrutou uma singular variedade
de talentos. Charles MacArthur tocava clarineta, Harpo marx tocava harpa, mas
só em lá maior. George Antheil, o compositor, ao piano, devia botar uma certa
ordem naquilo. Groucho Marx queria participar, mas os outros decidiram que ele
não era boa escolha, pois o único instrumento que tocava era bandolim, considerado
indigno da Ben Hecht Symphonietta. Era tudo mais ou menos uma brincadeira, mas
todo músico de câmera leva a sério sua obsessão.

Na noite do primeiro ensaio, no quarto andar de cima da casa, os músicos já tinham
começado a tocar quando alguém bateu com força à porta. De repente a porta se
abriu e Groucho apareceu:
"Silêncio, por favor", gritou e desapareceu batendo a porta.

Os músicos reunidos se entreolharam com algum constrangimento. "O Groucho está
com ciúmes", Harpo explicou. Hecht pensava ter ouvido sons estranhos vindos lá de
baixo, mas todos decidiram que era melhor ignorar e deixar Groucho por lá.
Recomeçaram a tocar. De novo, batidas à porta. De novo, Groucho apareceu:
"Silêncio, amadores nojentos!", gritou.

Os músicos, de novo, o ignoraram e Groucho virou-se e desceu correndo as escadas.
Mais uma vez voltaram aos intrumentos. Então, ouviu-se vindo lá de baixo o ressonante
floreado de uma orquestra. Era a abertura de Tannhauser de Wagner.

"Estarrecidos - lembrou Antheil - nos esgueiramos escada abaixo. Lá estava Groucho
regendo com grandes gestos de morcego a Orquestra Sinfônica de Los Angeles. Cem
homens, no mínimo, se espremiam na sala. Groucho os tinha contratado porque (como
explicou depois) estava magoado por não ter sido aceito na nossa Symphonietta.
Nós o aceitamos."

Otto Friedrich in A Cidade das Redes: Hollywood nos Anos 40.
São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

"Conheço um cara que encontrou tanta gente no armário, que se divorciou só
para conseguir um lugar onde pendurar as roupas." Groucho Marx,

por aly . 7:36 PM .

Sexta-feira, Agosto 12, 2005


Isabel Samaras: The Martyrdom of Pee Wee

Com abraço & cumprimento pela dica de Vigna Marú, sempre,

por aly . 9:56 AM .

Terça-feira, Agosto 09, 2005

MATSUO BASHÔ



"O que diz respeito ao pinheiro,
aprenda do pinheiro; o que diz
respeito ao bambu, aprenda do
bambu."

Bashô



HAICAIS

Recolhendo toda
A chuva do mês de maio
Corre o rio Mogami.

Num galho seco,
Um corvo pousado.
Tarde de outono.

Venerável
É quem não se ilumina
Ao ver o relâmpago!

Normalmente feios
Até os corvos ficam belos
Na manhã de neve.

As cebolinhas
Lavadas e tão brancas -
Que frio!

Mesmo em Kioto,
Saudade de Kioto -
O canto do cuco.

Nada indica
Que ela vá morrer -
Canta a cigarra.

Traduções de Edson Kenji Iura





O velho açude
A rã salta adentro:
Quash!

Versão de aly


O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

Tradução: Paulo Franchetti e Elza Doi

E mais duas Antologias da Rã, em português & inglês,

por aly . 3:49 PM .

Sábado, Agosto 06, 2005


De Saburosuke Okada (1869-1939)

Bucólica

Vaca leiteira
No pasto semântico
Que leitura!

aly. Opera Minima: Fonografias
(no preprelo)

Girando no toca-discos, Dee Dee Bridgewater:::Keeping Tradition,

por aly . 5:22 PM .

Terça-feira, Agosto 02, 2005


Le dictionnaire altéré de Céline Guichard

Na 'vitrola', Dee Dee Bridgewater:::Dear Ella,

por aly . 3:45 AM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





Desde
14 novembro 2002



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