Terça-feira, Junho 29, 2004

J.J. ARREOLA: DOIS CONTOS E DOIS PALÍNDROMOS


CONTO DE TERROR

A mulher que amei se converteu em fantasma.
Eu sou o lugar das aparições.

Palíndromos:

... éres o no éres.. seré o no seré...

Sofía Daífos a Selene Peneles:
Se van Sal aca tía
Naves Argelao es ido
Odiseo alégrase
Van a Ítaca las naves

J.J. Arreola, Palindroma




Hans Baldung, Eva c. 1520-23. Museum of Fine Arts, Budapest


EVA

Ele a perseguia através da biblioteca entre mesas, cadeiras e estantes.
Ela se escapava falando dos direitos da mulher, infinitamente violados.
Cinco mil anos absurdos os separavam. Durante cinco mil anos ela havia
sido inexoravelmente humilhada, desprezada, reduzida à escravidão.
Ele tratava de justificar-se por meio de um rápido e fragmentado elogio
pessoal, dito com frases entrecortadas e gestos trêmulos.

Em vão ele buscava os textos que podiam dar apoio a suas teorias. A
biblioteca, especializada em literatura espanhola dos séculos XVI e XVII,
era um dilatado arsenal inimigo, que justificava o conceito de honra e
algumas atrocidades desta espécie.

O jovem citava infatigavelmente a J. J. Bachofen, o sábio que todas as
mulheres deveriam ler, porque lhes devolveu a grandeza de seu papel
na pré-história. Se seus livros estivessem à mão, ele teria colocado a
jovem diante do quadro daquela civilização obscura, regida pela mulher,
quando a terra tinha em todas as partes uma recôndita umidade de
entranha e o homem tratava de alçar-se dela em palafitas.

Porém, à jovem, todas essas coisas a deixavam fria. Aquele período
matriarcal, por desgraça não-histórico e apenas remotamente comprovável,
parecia aumentar seu ressentimento. Escapava sempre de prateleira em
prateleira, subia às vezes as escadas das estantes e esmagava o jovem
sob uma chuva de insultos. Afortunadamente, na derrota, algo acudiu em
auxílio do jovem, lembrou-se, rápido, de Heinz Wölpe. Sua voz alcançou,
citando este autor, um novo e poderoso acento.

"No principio só havia um sexo, evidentemente feminino, que se reproduzia
automaticamente. Um ser medíocre começou a surgir de forma esporádica,
levando uma vida precária e estéril diante da maternidade magnífica.
Entretanto, pouco a pouco, apropriou-se de certos orgãos essenciais.
Houve um momento em que se fez imprescindível. A mulher se deu conta,
demasiado tarde, de que lhe faltavam já a metade de seus elementos e
teve necessidade de buscá-los no homem, que foi homem em virtude dessa
separação progressiva e desse regresso acidental a seu ponto de origem."

A tese de Wölpe seduziu a jovem. Olhou para ele com ternura. "O homem é
um filho que se portou mal com sua mãe por toda a história", disse, quase
com lágrimas nos olhos.

Perdoou-lhe, perdoando todos os homens. Seu olhar perdeu o esplendor,
baixou os olhos como uma madona. Sua boca antes endurecida por
desprezo, se fez tenra e doce como um fruto. Ele sentia brotar de suas
mãos e de seus lábios carícias mitológicas. Tremendo, aproximou-se de
Eva e Eva não fugiu.

E ali na biblioteca, naquele cenário deslocado e negativo, ao pé dos
volumes de conceituosa literatura, se iniciou o episódio milenar à
semelhança da vida nas palafitas.


In Obras de J.J. Arreola: Confabulario. Joaquin Mortiz: Mexico (DF), 1971.

Epígrafes:
in Obras de J.J. Arreola: Palindroma. Joaquin Mortiz: Mexico (DF), 1971.

Tradução: Alberto Lyra


por aly . 2:58 AM .

Sexta-feira, Junho 25, 2004




Impressões: nem eira, nem beira, de alhos & bugalhos


Duas coisas mais faladas nos blogues: orkut e alzaimerismo.
O orkut é o que está aí, um cult de massa de brasileiros, um erzatz
das salas sem bate-papo, um papo de aranha.
Já o alzaimerismo é um culto de fato, praticado pelos bloguelhos
e baseado nas palavras de Al Zaimer, um cristão heterodoxo que
pregava no deserto de Palmira no século passado. A meta dos
alzaimeristas ou alzaimerianos é a desertificação da mente. É
uma mistura de sol e areia. Sem oásis. Não é como o queijo suíço
com seus buracos, são só os buracos que valem. Na verdade, um
buraco único. Os bloguelhos estão neste impasse: entre o orkutismo
e essa prática esotérica de Al Zaimer.

A blogolândia/br é muito menos séria do que pensam seus leitores,
principalmente os leitores daqueles bloguelhos que se tomam a sério.
A propósito, num dia de ira, como Cristo a expulsar os vendilhões do
templo, exclamou Al Zaimer: "Vão pro orkut que te pariu."

Era um profeta.

por aly . 5:44 PM .

Quinta-feira, Junho 24, 2004


La Jeune Tarentine por Alexandre Schoenewerk, 1871 : Musée d'Orsay


DOIS POEMAS DE CECÍLIA VEBY


Olá Aly, tudo bem? Tenho me deliciado
com os seus cafés no letteri...
Fiz então um poeminha pensando nele:



Anjo Café

Deito, as asas descanso,
É manso o deitar
Com o anjo negro café.
Ele não tem olhos, alívio!
Um homem sem olhos,
Sem sexo,
Sem nexo,
Sem o fastio do convívio,
Só um cheiro marrom
Por cima da auréola
Do seio, um sai
E entra no tom
Sem o mínimo esforço
Vira-me anjo, de dorso,
Ou para o lado que der
Espreguiço... espreguiço...
Ai ! Que enguiço
Ser assim só mulher.

São Paulo, 15/Junho/04


Letais

Julietas envenenadas
Exaustas Isoldas
Desdêmonas sufocadas
Afogadas Ofélias
Butterflies rasgadas
Tísicas Camélias.
Prefiro-as, letais paixões
Às mornas salmouras,
Às pensas gangorras
Das calmas solidões.

São Paulo, 09/06/04

Cecília, um beijo de agradecimento

por aly . 4:16 PM .

Terça-feira, Junho 22, 2004

JUAN JOSÉ ARREOLA


em 1979

Ágrafa Musulmana en Papiro de Oxyrrinco

Estabas a ras de tierra y no te vi. Tuve que cavar
hasta el fondo de mí para encontrarte.

J.J. Arreola (conto completo)





Foto: Aleksandr Mikhailovich Rodchenko, 1925


ARMISTÍCIO

Com data de hoje retiro de tua vida minhas tropas de ocupação.
Distancio-me de todos os invasores em corpo e alma.
Nos veremos cara-a-cara na terra de ninguém. Lá onde um anjo
acena de longe convidando-nos a entrar: Aluga-se paraíso em ruínas.

J.J. Arreola: Cantos de Mal Dolor

In Bestiario: Obras de J.J. Arreola. Mexico(DF): Joaquin Mortiz, 1976

Tradução: Alberto Lyra


por aly . 1:02 AM .

Segunda-feira, Junho 21, 2004


Bondage-Composition-#1 by Marcus Ranum: "I find that the japanese bondage (shibari)
aficionados are fascinating; they love the ritual aspects of turning humans into abstract
compositions."



A: Segundo o senhor, tendências que, em outras situações,
seriam patológicas, as tendências masoquistas, por exemplo,
podem contribuir bastante para a estruturação do casal.


L: Hoje, as tendências masoquistas são de certo modo proibidas,
culpabilizadas. Mas as disposições masoquistas são inerentes
ao próprio funcionamento do psiquismo. Todos possuem uma
tendência à dependência que não pode se exprimir na vida
social, sob pena de o indivíduo ser esmagado, explorado. No
casal, porém, essas tendências podem ser vividas, 'recuperadas'
pela erotização das relações, e originar prazer. As relações
sadomasoquistas podem ser o sustentáculo de um relacionamento.


Jean-Georges Lemaire: psiquiatra, professor de psicologia da
Universidade de Paris V.

Entrevista concedida à Annick Gwenaël para o jornal Le Monde em
14 de agosto de 1983, apud O Indivíduo: Entrevistas do Le Monde.
São Paulo: Ática, 1989.


por aly . 1:18 AM .

Domingo, Junho 20, 2004


Picture taken from The Complete Crumb Comics 9, 1973

por aly . 7:44 AM .

Sábado, Junho 19, 2004


Chico, Tom & Vinícius na Churrascaria Carreta, s/d


Retrato em branco e preto

De Chico Buarque e Tom Jobim,
na voz de João Gilberto


Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

por aly . 10:11 AM .

Sexta-feira, Junho 18, 2004

PIADA DE PORTUGUÊS



- Diga-me, Manoel, tua mulher faz sexo contigo
por amor ou por interesse?
- Olha, Joaquim, acho que é por amor ...
- Como é que tu sabes?
- Porque ela não demonstra nenhum interesse!

Gentilezza de Erazê Martinho

por aly . 10:53 PM .




Alfred E. Neumann caracterizado como Alex DeLarge,
do filme Laranja Mecânica.


por aly . 12:52 AM .

Quinta-feira, Junho 17, 2004


Acima, parte do Aparelho F. Saiba, aqui, como operá-lo.

por aly . 3:48 AM .

Quarta-feira, Junho 16, 2004

EPÍGRAFES EM BUSCA DE UM TEXTO


Hoje em dia é moda defender causas das quais ninguém discorda.
Mike Patton

Certamente é útil aprender a servir-se de um computador; vantagem
maior ainda é aprender a viver sem ele.
G. Elgozy

Você não pode ser mais horrendo do que a própria vida.
Francis Bacon

A literatura é sempre um palimpsesto sobre o qual se escreve e se
volta a escrever.
Baudelaire

Aos quarenta anos um homem é responsável pelo seu rosto.
Balzac

Deus estabelece limites definidos para a sabedoria do homem, porém,
não para a sua estupidez.
Adenauer

Com que realidade o mundo é um sonho!
Fernando Pessoa

Eles fazem um deserto e chamam a isto de paz.
Toynbee

A ignorância é a ignorância. Nenhuma razão para crer que alguma coisa
possa derivar dela.
Freud

O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível.
Simone Weil

Man kann gar nicht genug vögeln.
Paul Federn


De vária leitura

por aly . 1:48 PM .



Note bene:

Quero, antes de mais postar, dizer que a brincadeira iconográfica com o fragmento
de Murilo Mendes é uma carnavalização. Não esqueçamos que Murilo Mendes foi
surrealista por um longo período de sua criação poética. E o Surrealismo foi, entre
outras coisas, mas principalmente, uma carnavalização da Opera de Freud.
Melhor ainda, uma encarnação de sua teoria. Uma boa encarnação!

por aly . 12:51 AM .

Terça-feira, Junho 15, 2004


Francis Picabia: Auto-retrato, circa 1940


Duas mulheres (antagônicas ou complementares?), consciência ou
inconsciência, debatem-se dentro de mim. Arrepio-me ao pensar que
passado, presente, futuro jamais decidirão o conflito. De qualquer
forma, todos, até o provável Deus, necessitam de um álibi.



Constrangido ou não, o corpo jejua. E o espírito? Jejua infinitamente mais.

Aguardamos algo de insólito, mas não o que nos aguarda.

Por excesso de atenção ao tempo, Menemósine perde a memória.

O labirinto recusa-se a orientar o conformista.

Sinto-me muitas vezes solidário do cretino, do analfabeto, do marginal, do
ente larvário, do ridículo, do anti-poético. Sabe-se lá quantas reservas de
enigma contêm.

Aquele é um carneiro aposentado, mas por prudência afivelou ao focinho
uma grande máscara de lobo.

Os peixes revoltam-se, invisíveis, no mar. Num aquário, visíveis, dançam.

Os involuntários da vida.


Murilo Mendes, Labirinto para SotoRoma (fevereiro de1962):
A Invenção do Finito, 1960-1970, (excertos).

In Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.


por aly . 12:21 AM .

Segunda-feira, Junho 14, 2004


Brassaï::: Matisse e seu modelo, circa 1939


"O pintor deve ser tão cego como vidente: palpar, tatear."

"Os sentidos de um pintor se desenvolvem não só na observação
minuciosa da natureza, como durante o próprio trabalho da feitura
do quadro."

Murilo Mendes, Ideário Crítico: Pintura.

In Laís Corrêa de Araújo. Murilo Mendes: Ensaio Crítico,
Antologia, Correspondência.
São Paulo : Perspectiva, 2000.

por aly . 12:23 AM .

Sábado, Junho 12, 2004

NO DIA D...

É bom lembrar de Liz & Burton em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, hohoho...

por aly . 2:42 AM .

Quarta-feira, Junho 09, 2004

RUA DA ACADEMIA DE CIÊNCIAS


Procurei os teus olhos, quis achar
Nos teus olhos a luz que nos salvasse.
Mas tu não tinhas olhos tinhas platéias
No Liz no S. Luís e no Terrace.

Busquei teu coração, não desisti à primeira.
Teu seio arfava arfava docemente
Por força que por baixo que por dentro
Tinhas um coração terno como gatinhos
Mas afinal não tinhas coração tinhas um saco
Com Jean-Paul Sartre e rendas a cinquenta o metro

Falei com tua mãe. Era impossível
O engano. Com certeza
Que o engano era impossível.
Mas ela murmurou: saia daqui, senhor,
Que anda você a traficar com a minha filha?

De forma que o entrar nas tuas pernas
Foi como entrar num tribunal de contas.
Não tinhas pernas, tinhas passadeira
Arroz licores outro noivo e gritinhos.

Mário Cesariny: Nobilíssima Visão, 1945-1946

In Burlescas, Retóricas, Sentimentais.
Porto: Editorial Presença, 1972

por aly . 5:10 AM .

Terça-feira, Junho 08, 2004


Man ray: Erotique Voilée, 1933

por aly . 7:14 AM .

Segunda-feira, Junho 07, 2004


Clark Gable & Vivien Leigh em ...E o Vento Levou, 1939


Colocaram uma tela enorme
no meio da praça
e o povo trouxe as cadeiras
pra ver Clark Gable beijar a moça
cuja boca estranhamente carmim
se abria lentamente e murmurava
I love you, I love you
como um grito no meio da cidade.





HISTÓRIA DE AMOR

No tempo em que se diziam hipérboles lancinantes
com um fino fio de sangue nos cantos da boca
eu tive um caso amoroso com um homem desconhecido
que eu amei pirotecnicamente.
Poesias de JGdeAraújoJorge decoradas no fogo da paixão
ensaiava passos de um estranho balé quase tango
que dançaríamos num dia qualquer
quando nos conhecessêmos.

Dois poemas de Maria do Rosário Valencise

In Revista Através, nº 1. São Paulo: Martins Fontes, 1983

por aly . 9:41 PM .

Sábado, Junho 05, 2004


Edward Hopper: Hotel Room, 1931


Acreditamos que as palavras não têm exatamente o mesmo 'peso'
psíquico segundo pertençam à linguagem do devaneio ou à
linguagem da vida clara - linguagem repousada e linguagem vigiada -
à linguagem da poesia, natural, ou à linguagem martelada pelas prosódias
autoritárias. O sonho pode ser uma luta violenta ou manhosa contra as
censuras. O devaneio faz-nos conhecer a linguagem sem censura. No
devaneio solitário, podemos dizer tudo a nós mesmos. Temos
ainda uma consciência bastante clara para estarmos certos de que
aquilo que dizemos a nós mesmos só o dizemos verdadeiramente
a nós mesmos.

Gaston Bachelard: Devaneios Sobre o Devaneio.

In A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

por aly . 5:36 PM .

Quinta-feira, Junho 03, 2004


Mojszes Precelman (viejo), n. Polonia, 1880
m. Polonia, al principio de la década de 1940


Reconstrução de Identidades: um dos posts mais bonitos que
vi no blogomondo, nestes Últimos Dias de Paupéria. Parabéns,
Nuno, do Rua da Judiaria & obrigado pela menção do letteri.

por aly . 11:55 PM .




Torquato Neto


Cogito

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranqüilamente
Todas as horas do fim


Let's Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito doido, doido
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
entre um sorriso de dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes

let's play that

Torquato Neto

por aly . 11:37 PM .

Quarta-feira, Junho 02, 2004


QUEM É JULES DASSIN?



ASSASIN?

NEVER ON SUNDAY


(1960, Jules Dassin) In the Athens seaport of Piraeus, an uptight American writer (played by director Dassin) - fired up by a little ouzo - gets divested of that darn idealism and puritanism by Melina Mercouri's fun-loving prostitute (Cannes Best Actress award and Oscar nomination), to the tune of bouzouki-playing Manos Hadjidakis' Oscar-winning theme song. "One of the great liberating films." - David Shipman.
FRI-MON 3:45, 7:45*
TUE 3:45

*JULES DASSIN In Person


Director, Writer & Co-star Jules Dassin will appear following
the 7:45 show of NEVER ON SUNDAY on Friday, October 5.


Saibas, com o Ruy, do filho dele:
Jules Dassin ist der Vater der französischen Sänger Joe Dassin.
Só saberás...


por aly . 3:56 AM .

Terça-feira, Junho 01, 2004


Brassaï: House of Illusion, 1933


A MULHER E A CASA

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.


João Cabral de Melo Neto: Quaderna, 1956-1959. Dedicado a Murilo Mendes.
In Poesias Completas: 1940-1965. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975


por aly . 9:20 PM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





Desde
14 novembro 2002



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