Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010 Foto de Laetitia Chretien et Sebastien Zanini: After the Carnival, 2010
Quando o Carnaval Chegar
Letra & melodia de Chico Buarque
Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando, não posso falar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Clica no botão e escuta a canção acima, com Nara Leão
Um bom carnaval para os que passam o 'tríduo momesco' em
SP, Rio ou Salvador; que eu vou é pra fazendola do Mirinho em
Guaxupé (MG). Até quarta-feira de cinzas,
por aly . 2:00 AM . Quarta-feira, Janeiro 27, 2010 Ary Barroso no Show do Gongo, com Tião Macalé: TV Rio, c. 1961
Ary Barroso + Antônio Maria
Havia uma grande má vontade de Ary Barroso em reconhecer a música de maior
sucesso de Antônio Maria, Ninguém me Ama. Ary considerava essa música
o símbolo do samba abolerado. Exigia que Antônio Maria deixasse de classificá-lo
de samba-canção, mudando o seu gênero para bolero. Ninguém me Ama foi
o pivô de discussões que se arrastaram por vários anos, sempre por iniciativa
de Ary Barroso.
Um dos mais famosos diálogos dos dois ocorreu na Cantina Sorrento na presença
de um numeroso grupo de boêmios (uma versão muito repetida diz que o bate-papo
ocorreu na casa de Ary, num dia que Antônio Maria foi visitá-lo quando ele já se
achava muito doente. Mas foi na Sorrento). Ary perguntou:
— Na sua opinião, Maria, qual é o meu maior sucesso?
— Sei lá — respondeu o cronista, arriscando em seguida um palpite — deve ser
Aquarela do Brasil.
Antônio Maria achou ridículo o pedido, mas Ary tanto insistiu que acabou cantando:
— Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos...
— Ótimo — cortou Ary Barroso — pergunta pra mim qual é o seu maior sucesso.
— Está bem, Ary, qual é o meu maior sucesso?
— Ninguém me Ama. Agora, me peça para cantar Ninguém me Ama.
Embora desconfiado, Antônio Maria pediu:
— Canta Ninguém me Ama.
— Não sei — berrou, provocando uma imensa gargalhada de todos os presentes.
In Sérgio Cabral. Nos Tempos de Ary Barroso Rio de Janeiro: Lumiar, 1993 ズ
"E foi-se o ano, ano bissexto arrenegado! Ano ruim, ano safado, ano
assim nunca se viu! Levou Aníbal, levou Antônio Maria, levou tanta
poesia com Cecília que partiu... Levou Ary e levou Álvaro Moreira
(nunca vi ano bissexto pra fazer tanta besteira!). E não contente
– eta aninho contundente! – ainda deixa pra semente tanto estorvo
pro Brasil." Vinicius de Morais, sobre o ano de 1964,
por aly . 11:29 AM . Domingo, Janeiro 17, 2010 Visionary: foto de Inez Van Lamsweerde & Vinoodh Matadin, 2000
XLIV — A SOPA E AS NUVENS
Minha louquinha bem-amada me dava de almoçar, e pela janela
aberta da sala de jantar eu contemplava as moventes arquiteturas
que Deus faz com os vapores, as maravilhosas construções do
impalpável. E eu pensava, em meio à minha contemplação:
"Todas essas fantasmagorias são quase tão belas como os olhos
da minha bem-amada, a monstruosa louquinha de olhos verdes."
E de repente levei um violento soco nas costas, e ouvi uma voz
rouca e encantadora, uma voz histérica e como que enrouquecida
de aguardente, a voz de minha querida bem-amada que dizia:
"Você vai ou não vai tomar logo a sua sopa, seu safado de um
mercador de nuvens."
"Essa grande infelicidade: a de não poder estar só." La Bruyère,
por aly . 12:38 AM . Terça-feira, Janeiro 12, 2010 Desenho de Saul Steinberg
PROSA DE DESINTOXICAÇÃO
I O quê? Foi no ano passado. Quando comecei a me dedicar ao exercício de
mexer os pés sobre o pufe. Enquanto os homens usavam, lá fora, as mãos
ou a cabeça, eu estirava meus pés sobre o pequeno pufe marrom, e movia
os pés ora pra direita, ora pra esquerda. Depois comecei a fazer bolinhas
de massa de pão e colocava a bolinha entre os dedos. Disse ao vizinho, o
polaco, que estava de férias, e deixei ao carteiro um aviso, para que não
me entregasse cartas em cujo envelope constasse: "Ao Senhor, etc..."
II Uma tarde, sob a água quente do chuveiro, abri os olhos e obtive a confirmação:
estava encolhendo. As paredes do chuveiro ficaram como as do palácio do Califa.
Olhei para os meus pés, mas não adiantou, pois estavam do mesmo tamanho.
Agora, pensei, poderei encarar as formigas de frente.
III Desde de que fui ver se estava lá na esquina não voltei. Domicílio não tenho mais.
A chave que o Sr. está vendo é da minha mala. Levo uns livros nela, para ver se me
encontro. Quer ler? Estão escritos numa outra língua. Resolvi que vou viver por trás
do nome de uma rua que atravessei, chamada Rua das Garças. Isso é o que faço
ultimamente. Antes riscava datas em folhinhas e olhava para o relógio. Não Senhor,
não tenho mais.
IV O cachorro? Ele atende pelo nome de Pigmeu. Vem, Pigmeu! Sim senhor,
ele não morde.
Adalberto Müller in Inimigo Rumor: Revista de Poesia nº 14: 2003
"O país da fantasia é, neste mundo, o único que merece ser habitado;
a essência do homem é tão nula que só é belo aquilo que não existe."
J.J. Rousseau in Nouvelle Héloïse,
por aly . 12:31 AM . Terça-feira, Janeiro 05, 2010 The Canary Murder Case com Louise Brooks, 1929: dir. Malcolm St. Clair & Frank Tuttle
The Canary Murder Case II
É terrível, minha tia me convida para o aniversário dela, eu compro de
presente um canário, vou lá e não tem ninguém, meu calendário está
com defeito, na volta o canário canta aos borbotões no bonde, os
passageiros entram em furor, compro a passagem do animal para que
o respeitem, quando me abaixo bato com a gaiola na cabeça de uma
senhora que se vira toda dentes, chego em casa completamente
banhado em alpiste, minha mulher fugiu com um escrivão, caio duro
no saguão e esmago o canário, os vizinhos clamam pela ambulância
e o carregam numa tabuinha, passo a noite inteira no piso do saguão
comendo alpiste e ouvindo o telefone tocar na sala, deve ser a minha
tia ligando para eu não esquecer do seu aniversário, ela sempre conta
com o meu presente, coitada da titia.
Julio Cortázar in Último Round. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2008 — Tomo II
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht ズ
Canário de conto et canário de canto,
por aly . 12:06 AM . Quinta-feira, Dezembro 31, 2009
FELIZ ANO NOVO!
Lino Ventura em La Bonne Année, 1973. Dir. Claude Lelouch
"Ano bom passa rápido." Dito popular,
E BOAS ENTRADAS EM ÁGUAS DE SÃO PAULO ANO 2010
+ Tom Waits,
por aly . 7:46 AM . Sexta-feira, Dezembro 18, 2009
Feliz Natal!
Seis Receitas de Peru Natalino por F. Scott Fitzgerald
Peru com Penas
Para preparar esta receita, é necessário um peru e um canhão com um projétil
de quatrocentos gramas para obrigar alguém a comer. Assar as penas e rechear
com artemísia, roupas velhas, qualquer coisa que você puder desencavar. Depois,
sentar-se e ferver em fogo lento. As penas devem ser comidas como alcachofras
(e isso não deve ser confundido com o antigo costume romano de fazer cócegas
na garganta).
Peru à la Maryland
Levar um peru gordo a um barbeiro e mandar que seja barbeado, ou, se for fêmea,
que lhe seja feita uma massagem e um mise-en-plus. Depois, antes de matá-lo,
recheá-lo com jornais velhos e fazer com que fique empoleirado. Então, ele pode
ser servido quente ou cru, em geral com um molho grosso de óleo mineral e álcool
de uso externo. (Nota: a receita me foi dada por uma velha mucama.)
Sobra de Peru
Esta é uma das receitas mais úteis, pois, apesar de não ser chic, ela nos informa
o que fazer com o peru depois do feriado e como extrair o máximo da ave. Pegar
as sobras ou, se foram consumidas, pegar os vários pratos em que estavam o
peru e suas partes e cozinhá-los em fogo lento por duas horas em leite magnésia.
Rechear com bolas de naftalina.
Peru com Molho de Uísque
Esta receita é para quatro pessoas. Obter um galão de uísque e deixar que
envelheça por várias horas. Depois servir, dando a cada convidado um quarto
de galão. No dia seguinte, o peru deve ser acrescentado, pouco a pouco,
sempre mexendo e sendo servido.
Coquetel de peru
A um peru grande, acrescentar um galão de vermute e um garrafão de aguardente
de casca de angostura. Sacudir.
Mousse de Peru
Descaroçar um grande peru virado para baixo, tendo o cuidado de remover os ossos,
a carne, o molho etc. Inflar com uma bomba de bicicleta. Armar num estilo elegante
e dependurar no hall da entrada.
Bem, acho que já chega de conversas de peru. Espero nunca mais ver um
peru ou ouvir falar de outro até — bem, até o próximo ano.
F. S. Fitzgerald in Crack-Up Porto Alegre: L&PM, 2007
Tradução: Rosaura Eichenberg
Editado por Edmund Wilson ズ
Dedicatória "Scott, teus últimos fragmentos arranjo esta noite,
Colocando vírgulas, ajustando estilos
Como outrora ordenei frases, ortografia e pontos,
Quando, de passagem por Princeton, numa primavera
— Quão obscurecida por este mais de um quarto de século! —
Deixaste teu Shadow Laurels à minha porta."
Edmund Wilson, fevereiro de 1942,
por aly . 11:47 PM . Sexta-feira, Dezembro 11, 2009 Alberto Giacometti::::L' Uomo che Cammina II, 1960 ►Art Institute of Chicago
SONETO
Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda fresco sobre a húmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
— Tão rediviva! nos meus olhos baços...
Olhos turvos de lágrymas contidas.
— Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes
Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça...
Toda essa extensa pista — para quê?
Se há-de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...
In Clepsydra: Poemas de Camilo Pessanha. Lisboa: Assírio Alvim, 2003.
Posfácio e fixação do texto: António Barahona ズ
"Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme..."
Camilo Pessanha,
por aly . 11:21 PM . Terça-feira, Dezembro 01, 2009 Lenny Kravitz & Adriana Lima em foto-anúncio do ensaio para a revista norte-americana Vibe, perlados com
produtos fashions, 2008
Rostos particulares em lugares públicos
É coisa mais gentil e mais sensata
Do que, em lugares particulares, rostos públicos.
W. H. Auden: Poemas Breves in Poemas.
São Paulo: Cia das Letras, 1986.
Tradução e Introdução de José Paulo Paes
e João Moura Jr.
"Seria todo retrato uma outra sombra, em falsas claridades?". João Guimarães Rosa,
por aly . 3:16 AM . Quinta-feira, Novembro 26, 2009 التوضيح اقلعت من صديقاتي
"Amor é reino não quer parceiro".
Ou: "Amor é vento vai um, vem cento".
Ditados populares,
por aly . 2:54 AM . Sábado, Novembro 21, 2009 Cartaz de Andreas Spielvogel: O Pintor Adolf Hitler ► Viena (Vanishing point), 2007
Da série — A Ilustração por Ilustradores (2)
"Não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um determinado efeito".
Joseph Goebbels,
por aly . 5:09 AM . Domingo, Novembro 15, 2009 Valentina por Guido Crepax
1. V. NOTAS DEL SUBTERRANEO 12
2. Y tentaba la demostración de que el caballero sin tacha
es el de la mancha, siempre mal tratando de mantener a
raya a las palabrabavuconas. Y a fin de cuentos, su brazo
diestro ya enlazándote, trataba de convencerte papel en
mano libre de que todo era literatura (tú lo decias mejor a
la francesa) o todo non era literatura. Y ahora sí a la acción
a la palabra blandiendo uno de sus papelotos garabateados
y meccanografiados. Fíjate, decia señalando con el índice de
la mano en tu cintura, segundos antes de que cayeseis en la
cama sempisterneamente deshecha - su verdadera litera
literaria o prusteico lecho de procusto, no? Fíjate, te habia
dicho al oído o lo estaba diciendo cuando caíais:
cada línea tachada es una perfecta y censurable story line
Tableteo toblatao en la noche. Tata-Tat-Tat-Tat-T' a la T' a-Tap!
Tape-Tap-Taps-Tat! La mithraillette Mayakovskienne? Catabola.
Cataybola, marcopulador. Ma Chine à écrire, où je machine/Your
Taipeh-writer? Ai! Shih! Shu! Shilienzo! I' m now very bussy with
my T'ai-p'ing!
Julián Ríos in Larva: Babel de una Noche de San Juan. Madrid: Mondadori, 1992 ズ
"Fe de erratas: Donde dice orgasme à bord, debe decir smorgasbord". J. Ríos, extratexto,
por aly . 3:42 AM . Domingo, Novembro 08, 2009 Desenho de Jacqueline Besoine: Eu Preciso Ficar Sozinha! ♥ 2009
Abadessa, oí dizer
que érades mui sabedor
de todo bem, e, por amor
de Deus, querede vos doer
de min, que ogano casei,
que ben vos juro que non sei
mais que um asno de foder.
Ca me fazen en sabedor
de vós que avedes bom sen
de foder e de todo ben;
ensinade-me mais, senhor,
como foda, ca o non sei,
nen padre nen madre non ei
que m' ensin', e fiqu'i pastor.
E se eu ensinado vou
de vós, senhor, deste mester
de foder e foder souber
per vós, que me Deus aparou,
cada que per foder, direi
Pater Noster, e enmentarei
a alma de quen m'ensinou.
E per i podedes gaar,
mia senhor, o reino de Deus:
per ensinar os pobres seus
mais ca por outro jajuar,
e per ensinar a molher
coitada, que a vós veer,
senhor, que non souber ambrar.
v. 5: ogano: este ano; v. 14: fiqu'i pastor: fiquei como
um jovem, sem experiência; v. 18: aparou: proporcionou;
v.20 enmentarei: farei referência, encomendarei; v. 25 jajuar:
jejuar; v. 28: ambrar: fornicar.
Comentário de Lênia Márcia Mongelli (excerto)
A cantiga apresenta a burla contra a abadessa, feita de forma
explícita pelo verbo foder, numa mistura jocosa entre o sagrado
e o profano. A estrofe I dá bem a mostra de como se constrói o
processo de inversão dos valores: os vv. de 1a 6 são modelares
na petição de auxílio para um recém-casado, melodramático e
enfático (por amor de Deus) em seus argumentos de inocência;
o v. 7 destrói abruptamente a impressão, ao revelar a verdadeira
intenção de súplica. Note-se que o maldizer não se restringe
apenas à esfera da foda: a comparação do "eu" discursivo com
um asno faz despencar a linguagem elevada.
Cantigas de escárnio e maldizer in Lênia Márcia Mongelli.
Fremosos Cantares: Antologia da Lírica Medieval Galego-Portuguesa.
São Paulo: Martins Fontes, 2009 ズ
"Para o mau fodedor, até o saco atrapalha". Dito popular,
por aly . 6:40 AM . Segunda-feira, Novembro 02, 2009 La Luna: manuscriptum do sec. XV ► Universitätsbibliothek Salzburg → M III 36 - 239r
O CAÇADOR
O caçador foi à caça,
À caça, como soía;
Os cães já leva cansados,
O falcão perdido havia.
Andando se lhe fez noite
Por uma mata sombria,
Arrimou-se a uma azinheira,
A mais alta que ali via.
Foi a levantar os olhos,
Viu coisa de maravilha:
No mais alto da ramada
Uma donzela tão linda!
Dos cabelos da cabeça
A mesma árvore vestia,
Da luz dos olhos tão viva
Todo o bosque se alumia.
Ali falou a donzela,
Já vereis o que dizia:
— "Não te assustes cavaleiro,
Não tenhas tamanha frima.
Sou filha de um rei c'roado,
De uma bendita rainha.
Sete fadas me fadaram,
nos braços de mi' madrinha,
Que estivesse aqui sete anos,
Sete anos e mais um dia;
Hoje se acabam nos anos,
Amanhã se conta o dia.
Leva-me, por Deus to peço,
Leva em tua companhia."
— "Espera-me aqui, donzela,
Té amanhã, que é o dia;
Que eu vou tomar conselho,
Conselho com minha tia."
Responde agora a donzela,
Que bem que lhe respondia!
— "Oh, mal haja o cavalheiro,
Que não teve cortesia:
Deixa a menina no souto
Sem lhe fazer companhia!"
Ela ficou no seu ramo,
Ele foi-se a ter com a tia...
Já voltava o cavaleiro
Apenas que rompe o dia;
Corre por toda essa mata,
A enzinha não descobria.
Vai correndo e vai chamando,
Donzela não respondia;
Deitou os olhos ao longe,
Viu tanta cavalaria,
De senhores e fidalgos
Muito grande tropelia.
Levavam na linda infanta,
Que era já contado o dia.
O triste do cavaleiro
Por morto no chão caía;
Mas já tornava os sentidos
E a mão à espada metia:
— "Oh, quem perdeu o que eu perco
Grande penar merecia!
Justiça faço em mim mesmo
E aqui me acabo co'a vida."
"O romance do Caçador pertence à poesia popular portuguesa,
é de imemorial antiguidade; e como a tal lhe dou aqui lugar entre
as relíquias mais originais de nossa primitiva literatura".
Almeida Garrett
In Romanceiro de Almeida Garrett. Selecção, organização, introdução
e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira. Lisboa: Ulisseia, 1996 ズ
"Dedico esse trabalho à memória de
Rita Augusta Machado Tarracha, a Avó
que me cantava romances e me ensinou
a ler." Maria Ema Tarracha Ferreira,
por aly . 3:01 PM . Terça-feira, Outubro 27, 2009 Tango nº 1
"No olvide usted, señora, la noche en que nuestras
almas lucharam cuerpo a cuerpo". Francisco de Aldana,
por aly . 3:36 AM . Sexta-feira, Outubro 23, 2009 Antônio Maria — História da Música Popular Brasileira Nº. 36: 1971
ANTÔNIO MARIA + VINICIUS DE MORAES
Não era o ritmo que se receita — toda a noite um cooper do Leme ao Posto 6 —
para um cardíaco. Pior: um cardíaco orgulhoso. Uma vez, lá pelas seis da manhã,
depois de cumprir um desses roteiros, Maria saía da última boate com Vinicius
de Moraes, quando cruzaram com um grupo de homens em idade avançada
fazendo ginástica na praia. Julgaram a cena lamentável. Os movimentos, para
quem balançava na água do uísque noturno, pareciam ridículos. Os calções,
pateticamente coloridos. O professor, barrigudo.
— Vamos fazer um pacto, sugeriu Maria, em tom grave.
— Juramos neste momento que jamais participaremos de uma calhordice como
a desses sujeitos. Jamais faremos qualquer esforço físico desnecessário. Topa?
Diante da aprovação de Vinicius, apertaram-se as mãos, lançaram um novo
olhar para os velhos ginastas e gritaram juvenis:
— Seus calhordas! Seus calhordas!
In Joaquim Ferreira dos Santos. Um Homem chamado Maria. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005 ズ
Antonio Maria era brigão, bebia e trabalhava muito — e cardiopata;
cardisplicente, como ele dizia de si mesmo; mas era, principalmente,
um apaixonado por suas mulheres, as que teve na sucessão do tempo.
Para mim, ele morreu de amor aos 42 anos. Esse lado amoroso é revelado
em suas músicas e em suas crônicas, como neste trecho d'abaixo:
"Não há sensação mais curiosa que a de encontrar a ex-namorada pela
primeira vez em companhia de seu atual namorado. Por mais que a gente
lhe olhe o rosto, não lhe vê as feições. É uma mulher sem olhos, sem nariz
e sem boca, que a gente só reconhece pela falta de ar que nos causa sua
presença". Antônio Maria,
por aly . 2:01 PM . Segunda-feira, Outubro 19, 2009 Foto de Helmut Newton in Big Nudes, 1990 (histérica com sintoma kaiseriano)
HISTERIA
Desde Freud, a psicologia busca uma explicação para a histeria nas teorias da
personalidade volátil, histriônica; a psicanálise a atribue a conflitos edipianos.
Apesar das negativas de que a histeria seja uma enfermidade feminina, as questões
da feminilidade ainda são centrais na teoria psicanalítica. O psicanalista britânico
Gregorio Kohon afirmou que todas as mulheres passam, em seu desenvolvimento
psicossexual, por uma fase histérica em que transferem seus desejos da mãe para
o pai. Segundo Kohon, "no fundo do coração, a mulher permanece uma histérica
para sempre.*
A psicanalista francesa Janine Chasseguet-Smirgel formulou a hipótese da "aptidão
femina para a somatização". As mulheres, declara ela, transformam emoção em
manifestações físicas porque têm sexualidade mais difusa que a masculina. Em vez
de centrar-se num único órgão visível, a sexualidade feminina torna o corpo inteiro
disponível para o simbolismo sexual.**
*Gregorio Kohon. Reflexions of a Dora: The Case of Hysteria. International Journal
of Psychoanalys, 65 (1984): 73
**Janine Chasseguet-Smirgel. The Femininity of the Analyst in Professional Practrice.
International Journal of Psychoanalys, 65 (1994): 169-78.
In Elaine Showalter. Histórias Histéricas: A Histeria e a Mídia Moderna.
Rio de Janeiro: Rocco, 2004. Tradução: Heliete Vaitsman ズ
"No histérico, o medo fundamental é o da rendição psíquica ao objeto. O histérico
obriga seu ambiente a agir sobre ele, ou para ele, mas permanece inacessível a
reciprocidade de um diálogo psíquico e de uma partilha". Jean-Jacques Deschamps,
por aly . 2:12 AM . Quinta-feira, Outubro 15, 2009 Arte de John MacAcor: O Gorila e Sua Amada, 1936
Goleada de livros, claro, traz Dawkins
Continua a invasão do mercado editorial, principalmente de língua inglesa, por livros
sobre Charles Darwin; mas no Brasil, por enquanto, poucos chegaram. Além do livro
de Steve Jones, a Record lança em novembro o novo da dupla de biógrafos Adrian
Desmond e James Moore, A Causa Sagrada de Darwin. A Companhia das Letras
anuncia para o mesmo mês outro livro do controverso Richard Dawkins, O Maior
Espetáculo da Terra. E a Larousse publicou O Jardim de Darwin, de Michael Boulter.
De autores brasileiros, um dos dignos de nota é A Goleada de Darwin, de Sandro de
Souza, também da Record. No exterior, além dos já comentados como Evolution
– The First Four Billion Years, editado por Michael Ruse e Joseph Travis, e Angels
and Ages – A Short Book About Darwin, Lincoln, and Modern Life, do jornalista cultural
Adam Gopnik, há incontáveis títulos. Entre eles se destacam pela qualidade Darwin’s
Universe, de Richard Milner (University of California Press), e Darwin’s Armada, de Iain
McCalman (W. W. Norton & Company).
Eu sei que nós homens viemos do macaco e sei até mesmo que a
mulher tb veio dele. Mas é preciso ficar falando nisso a toda a hora?,
por aly . 12:10 AM . Terça-feira, Outubro 06, 2009 The castrati choristers: Fluke, Entwhistle, Catflap and Lozenge in 1886
OS CASTRADOS E AS MULHERES
"Quando já não estivermos cá (os castrados), o
bel canto poderá entoar também o seu Miserere".
Allegri
Já no século XVII, Vittori fazia delirar a multidão nos seus aparecimentos públicos
ou privados: lutava-se para entrar nas igrejas onde cantava e tomavam-se de
assalto os palácios onde atuavam perante a aristocracia. Ferri levantava ondas
de entusiasmos nunca vistas ainda: à sua chegada à Florença, mais de 4
quilômetros antes das portas da cidade, veio ao seu encontro um cortejo para o
acompanhar e o levar em triunfo. Doutra vez, à saída de um espetáculo, um
mascarado (homem ou mulher?) meteu-lhe num dedo um anel provido de uma
esmeralda de valor incalculável.
Para eles, como para seus sucessores, as efusões das damas da nobreza não
tinham limites, lançavam-lhes para o palco coroas de louros, dísticos ou sonetos
inflamados e não andavam sem um retrato do seu castrado favorito sobre o
coração.
Marchesi, a despeito da arrogância dos seus caprichos e do seu cabotinismo, foi
quiçá o cantor mais adulado pelo belo sexo. A sua juventude, beleza, e toda essa
"poeira nos olhos" que ele distribuía com tanta arte punham as mulheres em
estado quase de transe.
Stendhal conta-nos que, em Viena, Marchesi se tornara a mascote da corte: as
damas traziam ao pescoço uma medalha com a sua efígie, uma em cada braço e
duas mais cosidas aos sapatos. Mme. Vigée Lebrun fez um comentário análogo a
respeito de Crescentini: "Enfim, numa palavra, ele substiuiu Marchesi, por quem
todas as romanas estavam loucas, de tal forma que, na última representação que
deu, elas confessavam-lhe alto o seu desgosto: várias choravam mesmo
amargamente, o que se tornou um segundo espetáculo".
In Patrick Barbier. História dos Castrados.
Lisboa: Livros do Brasil, 1991 ■ (fragmento capitular) ズ
"Despira os trajes de teatro e vestia um corpete que desenhava um talhe esbelto
e valorizava a saia de balão do vestido de cetim, bordado com flores azuis. O peito
resplandecia de brancura por entre uma renda que, graciosamente, lhe dissimulava
os tesouros". Honoré de Balzac a descrever Zambinella, um castrato, que seduz um
um escultor francês a visitar a corte romana em 1758, no livro Sarrasine,
por aly . 1:45 AM . Quarta-feira, Setembro 30, 2009 Manuel Bandeira em Teresópolis, RJ, 1966
PARA MANUEL BANDEIRA
COM UM PRESENTE
Eis, páginas abertas, os teus livros.
Desejo, é claro, agradecer-te, embora
não possa esquecer de que nós dois
falamo-nos bem pouco até agora.
Dois poetas sem par, embaraçados
porque trocar palavras é difícil.
Mas como disse Joe McCarthy: "Nada
ouvi mais inaudito do que isso!"
Tradutor cada qual da língua do outro!
(Um título que julgo merecer.)
O maior, ainda jovem esculpido
em bronze e já famoso em seu mister,
a quem a fama — e Miss Brasil — sorriram!
É homem de ficar sem dizer nada
quem, galante, verteu Elinor Glyn
numa prosa bem mais sofisticada —
e pôs na boca do Tarzã, que mal
falava, certa graça do latim,
refinando o selvagem de Edgar Burroughs?
É justo que se cale alguém assim?
Não sou, no que me tange, raconteur,
sou fraca em minhas réplicas não raro;
meus amigos, porém, de língua inglesa
receio que dirão que jamais paro:
que falo e falo sempre, às vezes dias
a fio, sem dar sinal que a conversa
possa cessar, de que me conviria
trocá-la por qualquer coisa diversa.
Conversas e conversas que melaram!
Saibas porém: jamais achei que para
dizer "Teu livro é bom, eu gostei muito",
damascos sejam a expressão mais clara;
tampouco me parece que a conserva
possa implicar: "Ofuscas teus rivais"...
Não acho não, porém recebe e passa
no pão meus elogios cordiais.
Que fale ao teu estômago de poeta,
Manuel, o doce mudo — docemente.
Aceita uma vez mais minha amizade
e um pote de geléia de presente.
Elizabeth Bishop in Poesia Alheia: 124 Poemas
Traduzidos — por Nelson Ascher. Rio de Janeiro:
Imago, 1998 (edição bilíngue) ズ
Nota d'aly: Flora Süssekind foi quem descobriu esta carta-poema nos
arquivos de Manuel Bandeira e a localizou no tempo — ano
1955 — como se pode ler aqui,
por aly . 12:50 AM . Quinta-feira, Setembro 24, 2009 Joan Crawford e Robert Montgomery em Our Blushing Brides: dir. Harry Beaumont, 1930
DO PUDOR
O pudor proporciona prazeres muito agradáveis ao amante; faz
com que ele sinta que leis estão sendo transgredidas por ele.
E às mulheres prazeres mais embriagadores: como eles fazem
vencer um hábito poderoso, lançam maior perturbação na alma.
O conde de Valmont encontra-se à meia-noite no quarto de
dormir de uma bela mulher; isso lhe acontece todas as semanas,
e a ela, talvez, uma vez a cada dois anos; a raridade e o pudor
devem, portanto, proporcionar às mulheres prazeres infinitamente
mais intensos.
O inconveniente do pudor é que ele leva continuamente à mentira.
O excesso de pudor e sua severidade desencorajam o amor nas
almas ternas e tímidas, justamente aquelas que são feitas para
dar e sentir as delícias do amor.
Entre as mulheres ternas que não tiveram vários amantes, o pudor
é um obstáculo ao desembaraço das maneiras, é o que as faz correr
o risco de se deixarem levar pelas amigas que não têm a mesma falta
a se censurarem. Elas dão atenção a cada caso em particular, em vez
de recorrerem cegamente ao hábito. Seu pudor delicado comunica a
suas ações algo de constrangido; de tanta naturalidade, parecem não
ter naturalidade; mas essa falta de jeito tem algo da graça celeste.
Stendhal in Do Amor. São Paulo: Martins Fontes, 1993
(excertos do capítulo) ■ Tradução: Roberto Leal Ferreira ズ
"O pudor é tão necessário aos prazeres que é preciso conservá-lo
mesmo nos momentos destinados a perdê-lo". Anne Lambert,
por aly . 1:18 AM . Sábado, Setembro 19, 2009 Matthias Grünewald: A Tentação de Santo Antão, c. 1515 (detalhe) ►Musée d'Unterlinden, Colmar
NASCIMENTO
O santo, hoje em dia, vive e lê na cidade, no meio do asfalto a perder de vista,
alimentado de regime para o estômago fraco e de comidas destituídas de gosto
pela agro-indústria alimentar ou indústria farmacêutica, move-se na luz unitária
de eletricidade que impede até a noite de chegar de novo ao dia, respira só os
cheiros de gasolina de querosene e, sobretudo, não conhece nada além da escrita,
palavras-imagens que cobrem de ponta a ponta a cidade desértica, paredes, telas,
painéis, lojas, veículos, em breve, o céu, o santo enfim existe somente no verbo
que exige, para uma tal existência, ascetas que não tenham outra ciência senão a
do verbo: lógicas, mídias, gramáticas, anúncios, fórmulas, códigos... informação em
todos os sentidos, cenobitas que demonstram que o cinza da cidade e o fedor de
que se impregnam nunca os irritam mais do que as frases e a sintaxe. Vitória da
razão: o damasco já não tem outro gosto senão o da palavra que entra na boca
para dizê-lo.
A cidade é povoada de eremitas que só têm uma língua.
Daí, vivemos no meio de uma imensa e coletiva tentação de santo Antão. Para criar
uma cultura, é preciso um corpo e sentidos. A língua ou a inteligência artificial
produzem uma subcultura, por falta de corpo. O sensível reaparece, sombra teimosa,
infernal, através da abstração imposta, nas imagens e na língua, desfigurado pelo
estrago do desprezo. Sentadas nos festins, as estátuas ou robôs sonham com listas
e ícones.
Anacoretas exaustos, à noite, de trabalho formal e solitário, buscamos um sono
raro, saturados de crimes de tinta vermelha, fascinados frequentadores da gente
do poder, saciados de trepadas ginásticas, empanturrados de rega-bofes de cores
desagradáveis, de todo um banquete instantâneo, quimérico, evaporado à pressão
de um toque.
Esse subfestim perpétuo e desprezível, imaginário, aberto pela pressão linguística,
quem melhor o disse que este que assina o nome esperado: santo Antão?
Michel Serres in Os Cinco Sentidos: Filosofia dos Corpos Misturados (vol. I)
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 — tradução: Eloá Jacobina (excertos) ズ
"Nenhuma cultura atingiu o grau de ascetismo como a que hoje impõe
a chamada civilização de consumo, nosso banquete." Michel Serres,
por aly . 12:27 AM . Domingo, Setembro 13, 2009 Odilon Redon: Je Vis Dessus le Contour Vaporeux d'une Forme Humaine, 1896 ►Art Institute of Chicago
DOIS MOMENTOS DE UM MESMO AMOR EM RILKE
"Mas que é daquele que já sabia? Daquele em cujo coração já se apresentava
a solidão dos amantes? Ele conhecia de antemão a pura face da amada. Ao
fugir às semelhanças familiares que o envolviam, as quais constituíam, traço por
traço, um direito sobre ele, o semblante dela veio a se tornar o seu próprio futuro;
através dos olhos dela, comtemplava o aberto.
"A sua pequena mão pousava calmamente sobre a dela, a qual o conduzia e jamais
dele se apossava. Enquanto crescia, ia ele distinguindo mais e mais a sua alta figura
— naquele tempos ela por vezes aparecia e o examinava como se fosse um dardo de
arremesso.
"E mais tarde, arremessou-o.
"Ah, com que poderia a amante surpreender aquele que, mais do que uma
recordação, tinha a clara consciência disto: desta escolha; a volúpia do braço
que se estende, o ser arremessado — oh, e o tremor ao atingir o alvo."
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"De que serviu saber que eu só podia estar feliz e comovido em meu trabalho?!
E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi
à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de
mim mesmo.
"Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para
o lugar mais perto de ti — por mais aí que ele seja grande, sensível jubiloso, ou
timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração de minha vida.
"Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me
que podias abarcar todos os tipos de amor para mim. Ah, controla-te, ......,
resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida,
fortalece-me como pode.
"Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me
atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse,
terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que
terias, não a mim."
In Rainer Maria Rilke. Testamento. São Paulo: Globo, 2009
Prefácio de Helmut Galle. Tradução: Tercio Redondo
(2 fragmentos) ズ
Mi Lu
mi lubidulia
mi golocidalove
mi lu tan luz tan tu que me enlucielabisma
y descentratelura
y venusafrodea
y me nirvana el suyo la crucis los desalmes
con sus melimeleos
sus eropsiquisedas sus decúbitos lianas y dermiferios limbos y gormullos
mi lu
mi luar
mi mito
demonoave dea rosa
mi pez hada
mi luvisita nimia
mi lubísnea
mi lu más lar
más lampo
mi pulpa lu de vértigo de galaxias de semen de misterio
mi lubella lusola
mi total lu plevida
mi toda lu
lumía
Oliverio Girondo in Obra Completa. Madrid; Barcelona; Lisboa;
Paris, México (DF); Buenos Aires; São Paulo; Lima; Guatemala;
San José; Santiago de Chile: ALLCAXX, 1999. Raúl Antelo (org.)
Oliverio e Norah
Tive ontem o prazer de abraçar no Hotel Natal dois grandes amigos
argentinos que nos visitam — Oliverio Girondo e Norah Lange. Duas
criaturas unidas em doce pausa de compreensão e amor, o perfeito
ponto-e-vírgula: Oliverio Girondo o ponto, Girondo rotundo a começar
pelo nome, Girondo, ironicamente emboscado em suas barbas "para
dissimular sua eloquência", Girondo redondo, não à maneira mole do
pingo de óleo acomodatício, mas como a ponta do buril que fixa na
placa as linhas essenciais do mundo e da vida; Norah, a vírgula
completando, submissamente feminina, a luz de inteligência,
preservando em poesia as surpresas encantadoras da infância.
A Manhã, 7 de agosto de 1943
In Manuel Bandeira. Crônicas Inéditas 2 São Paulo: CosacNaify, 2009 (fragmento) ズ
* Bisbilho: "Ms. Page was once promoted as 'the girl with the most beautiful
face in Hollywood,' and the vivacious, golden-haired actress claimed
at the peak of her fame in the late 1920s to have received
marriage proposals by mail from Italian dictator Benito Mussolini".
By Adam Bernstein, Washington Post, Monday, September 8, 2008,
por aly . 12:10 AM . Sábado, Setembro 05, 2009 Thomas Bernhard em foto de Erika Schmied, 1978
3 PEQUENAS NARRATIVAS DE THOMAS BERNHARD
Hotel Waldhaus
Não demos sorte com o clima e, à nossa mesa, sentaram-se
convidados repugnantes em todos os aspectos. Até nosso gosto
por Nietzsche conseguiram estragar. Mesmo depois do acidente
automobilístico fatal, quando seus corpos jaziam nos caixões na
igreja de Sils, nosso ódio por eles ainda persistia.
Cuidado
Um funcionário do correio acusado de ter assassinado uma mulher grávida
declarou no tribunal não saber porque havia matado a grávida, mas que
havia matado sua vítima tão cuidadosamente quanto possível. A toda
pergunta do juiz, ele sempre respondia com a palavra cuidadosamente,
motivo pelo qual o processo contra ele foi arquivado.
Demais
Um pai de família querido e famoso fazia décadas por seu dito senso familiar
extraordinário e que, num sábado à tarde, quando por certo o tempo estava
muito abafado, matou quatro dos seus seis filhos, justificou-se no tribunal
alegando que, de repente, os filhos haviam se tornado demais para ele.
In O Imitador de Vozes. São Paulo: Cia das Letras, 2009
Tradução: Sergio Tellaroli ズ
"Diferentes maneiras de olhar uma maçã: a do menino, obrigado
a esticar o pescoço para ver em linha reta a maçã em cima da
mesa, e a do dono da casa que pega na maçã e a estende
livremente ao seu conviva". Franz Kafka in Meditações,
por aly . 7:55 PM .
Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.