Sexta-feira, Julho 03, 2009


Foto de Nick Pipol: To Be, or Not to Be


SABOR A MÍ

De Álvaro Carrillo, 1959

Tanto tiempo disfrutamos de este amor
nuestras almas se acercaron tanto así
que yo guardo tu sabor
pero tú llevas también
sabor a mí.

Si negaras mi presencia en tu vivir
bastaría con abrazarte y conversar
tanta vida yo te di
que por fuerza tienes ya
sabor a mí.

No pretendo ser tu dueño
no soy nada, yo no tengo vanidad
de mi vida doy lo bueno
soy tan pobre, ¿qué otra cosa puedo dar?.

Pasarán más de mil años, muchos más
yo no sé si tenga amor la eternidad
pero allá, tal como aquí
en la boca llevarás
Sabor a mí.


"Me preguntan que porque eres mi cachito
y yo siento muy bonito al responder
porque eres de mi vida un pedacito
a que quiero como a nadie de querer.

Cachito, cachito, cachito mío
pedazo de cielo que Dios me dio
te miro y te miro y al fin bendigo
bendigo la suerte de ser tu amor."

De Consuelo Velazquez e Álvaro Carrillo,

por aly . 4:47 AM .

Sexta-feira, Junho 26, 2009


Foto de Damiano Cali: The Book's Lover (leitura por gluteosmose)


VII

Epigrama

Pode Beatriz criar como se fosse Dante
ou Laura celebrar a chama do amor?
Eu ensinei as mulheres a falar,
mas agora, meu Deus, como fazê-las calar?

Anna Akhmátova, do Sétimo Livro: 1958

In Anna Akhmátova. Antologia Poética.
Porto Alegre: LP&M, 2009.
Seleção, tradução do russo, apresentação
e notas de Lauro Machado Coelho.


Nota de Lauro Machado Coelho:

Especialmente interessante, por revelar um lado bem-humorado
raramente aparente em seus escritos, é o Epigrama (nº 7), em que
zomba de suas imitadoras. Korniêi Tchukóvski, biógrafo da autora,
conta: "Quando ela publicou, em Viétcher, aquele poema sobre a
luva que põe na mão errada, observou, rindo: 'Escreva o que eu
digo, amanhã (e disse o nome de uma das poetisas mais tolas
daquela época) vai escrever que pôs no pé esquerdo a galocha
do pé direito'. E estava coberta de razão! Depois que Viétcher e
Tchiôtki apareceram, veio uma verdadeira avalanche de poesia
feminina amaneirada, insípida, histérica, vulgar, uma bobajada
sem sentimento algum...".



"Ele gostava de três coisas neste mundo:
o coro das vésperas, pavões brancos
e mapas da América já bem gastos.
Não gostava de crianças chorando,
nem chá com geléia de framboesa
e nem de mulheres histéricas.
E eu era a mulher dele".
Anna Akhmátova,

por aly . 3:09 AM .

Sábado, Junho 20, 2009





PRESENTES

Para mim quem bateu o recorde do incômodo e de aborrecimento por causa
de amigos foi aquele herói de Godofredo Rangel, a quem deram, num embrulho
de jornal, oitenta contos de réis para trazer de Minas e serem entregues a uma
firma daqui. O homem passou três dias sem poder comer, nem palitar os dentes,
nem pregar o olho. E no fim, ao contar o dinheiro, sob a vista desconfiada do
gerente, constatou que faltavam, dois contos de réis.

Essa mania brasileira de mandar coisas por amigo em viagem, me beneficiou
agora com uma caixa de charutos especialmente enviada da Bahia pelo poeta
Odorico Tavares, sob o patrocínio casagrandesco de Gilberto Freyre.

À vista do que senti de agradável surpresa, compreendo a paciência dos que,
nos hotéis vertiginosos de hoje, amontoam vestidinhos, brinquedos, livros e até
pentes para regalo dos que no fundo de uma província esperam lembranças com
olhos antigos.

Esse Brasil ainda não acabou. E pode até suceder que, num avião a jato,
se mandem perus de recheio para a gula dos comilões do Natal.
Nesse caso eu também quero um.

Correio da Manhã – 26 de outubro de 1947

In Oswald de Andrade. Obras Completas – Telefonema.
São Paulo: Globo, 2007. (2ª edição aumentada)
Organização, introdução, posfácio e notas:
Vera Maria Chalmers.


"Filho único mimado pela mãe amazonense, generosa, afetiva e economicamente,
dando-lhe tudo para que se tornasse escritor, Oswald De Andrade é o homem da mulherofilia,
além do macho femeeiro em sua vida e obra. Viveu amores românticos com várias mulheres
e sem sovinice. Antecipou com Pagu nos anos 30 a Nouvelle Vague godardiana na mescla de
lirismo com política, que continua em A Morta. Sua antropofagia é a denúncia do machismo
patriarcal arraigado na sociedade brasileira. Cultura só para homens. É enganosa a fofoca
de ter sido machão comedor, voraz e compulsivo, por causa do lema "bom estômago
e pau duro". Em sua crítica à ideologia fálica capitalista delineia-se a unidade orgânica entre
o sol, o trópico, a floresta, o matriarcado, projetando o útero como divisa lúdica do Estado-Mãe
na América do Sul, ou seja, uma sociedade antípoda do "utilitarismo mercenário e mecânico
do Norte". Gilberto Vasconcellos, em obra ainda inédita em livro: Sol Oswald:

http://www.gradiva.com.br/site/scripts/gilberto.htm
http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/19/artigo113361-1.asp
http://1.bp.blogspot.com/_BpQ0Csl7Poc/SfzL7ktkKqI/AAAAAAAAALk/8NJwPDBDrYk/s1600-h/
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,

por aly . 1:26 AM .

Segunda-feira, Junho 15, 2009




Cabral recebe em Genebra, um dia, a visita de Vinicius de Moraes, que passa
uma temporada de trabalho em Paris para escrever o roteiro do filme Arrastão.
Vão a um bar e Vinicius, logo, saca seu violão e começa a desfiar suas últimas
composições.

Cabral se irrita com o sentimentalismo do amigo. "Me desculpe, Vinicius",
interrompe, "mas por que todas as tuas músicas falam de coração. Será
que você não tem outra víscera para cantar?"

Vinicius de Moraes, como sempre, não perde a pose: "Pois é João, você
continua o mesmo nordestino seco. Mas, um dia, ainda hei de colocar
música em um desses teus poemas de cabra", ameaça. A praga jamais
foi cumprida.

Chico Buarque de Hollanda só consegue musicar Morte e Vida Severina
porque o faz sem que Cabral o saiba. Só depois de ter a melodia pronta,
o jovem Chico a exibe ao poeta. "Se ele tivesse me pedido autorização
antes", Cabral confessa depois, "eu teria respondido: 'Nem tente'."

In José Castello. João Cabral de Melo Neto: O homem sem Alma
& Diário de Tudo
. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.


"O livro mais doloroso e pungente que li nos últimos anos foi o
autobiográfico Retrato do Artista quando Velho, de Joseph Heller.
Não tinha ainda lido o livro de José Castello. Agora, estou certo
de que o livro mais doloroso e pungente que me caiu às mãos
nos últimos anos é João Cabral de Melo Neto: O Homem sem Alma".
Silviano Santiago,

por aly . 11:03 AM .

Segunda-feira, Junho 01, 2009


A primeira pisada na Lua, por Neil Armstrong, 20 de julho de 1969: 23h56m, hora de Brasília


Notice

A la misma hora,
más o menos,
que el señor Neil Armstrong,
astronauta norteamericano,
ponia los pies, por vez primera,
sobre la supercie de la luna,
mi mujer y yo,
en pijama,
matábamos a escobazos
un ratoncillo
que se nos habia metido
en la habitación,
al anochecer,
y que hasta entonces
no habiamos conseguido
localizar.

Miquel Martí i Pol in Poemas.
Revista Hora de Poesia: 55-56,
Enero-Abril, Barcelona, 1988.
(Tradução do catalão para
o castelhano: Albert Tugues)


"É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco
salto para a Humanidade". Neil Armstrong, ao pisar na Lua
em 20 de julho de 1969,

por aly . 2:37 AM .

Sexta-feira, Maio 29, 2009


Foto de Jean-Pierre Nouille: Lesbian Knot, 2006


COSMOGONIA

Estirava ligeiramente a coxa
e colocava entre minhas pernas,
e a sua perna esquerda
passava por cima, por fora
da minha coxa direita.

Joan Brossa in Poesia Vista.
São Paulo: Amauta & Ateliê Editorial, 2005.
Seleção e Tradução: Vanderley Mendonça





"Princípio de mobilidade dos centros: A rede não tem centro, ou melhor,
possui permanentemente diversos centros que são como pontas
luminosas perpetuamente móveis, saltando de um nó ao outro,
trazendo ao redor de si uma ramificação infinita de pequenas
raízes, de rizomas, finas linhas brancas esboçando, por um instante,
um mapa qualquer com detalhes delicados; e depois correndo para
desenhar mais à frente outras paisagens de sentido".
Pierre Lévy in As Tecnologias da Inteligência,

por aly . 12:14 AM .

Sexta-feira, Maio 22, 2009


Fotomix de Hydiot Netmann: Homo Webicus avec son Appareil de Twitter, 2009


DA MEDIOCRIDADE

chega-te aos maus
que os fará melhores

chega-te aos bons
que os fará piores

José Paulo Paes in Poesia Completa.
São Paulo: Cia das Letras, 2008


"Medíocre mesnada de medianeiros médios..."
Maiakovski
,

por aly . 8:12 AM .

Sexta-feira, Maio 15, 2009


Ilustração de Carlo para o livro de René-Michel Desergy: À Toute Volée.
Paris: Librairie Artistique et Édition Parisienne Réunies, 1936



A PUNIÇÃO GENERALIZADA

O protesto contra os suplícios é encontrado em toda parte na
segunda metade do século XVIII: entre os filósofos e teóricos
do direito; entre juristas, magistrados, parlamentares; nos cahiers
de doléances
* e entre os legisladores das assembléias.

é preciso punir de outro modo: eliminar essa confrontação física
entre soberano e condenado: esse conflito frontal entre a vingança
do príncipe e a cólera contida do povo, por intermédio do supliciado
e do carrasco.

O suplício tornou-se rapidamente intolerável. Revoltante, visto da
perspectiva do povo, onde ele revela tirania, o excesso, a sede de
vingança e "o cruel prazer de punir".**

Michel Foucault in Vigiar e Punir. Rio de Janeiro, Vozes, 1977.
(excerto do capítulo)

*Cahiers de Doléances, cadernos dos delegados aos Estados
Gerais de 1789 em que se registravam seus pedidos.

** J. Petition de Villeneuve, Discurso na Constituinte, Archives
Parlamentaires
, t. XXVI , p. 641.



Nota d'aly — por outro lado:

Espancamento e sexo (verbete)
- termo referente ao espancamento
como forma de estimulação sexual. Estudos mostraram que as
crianças podem ser estimuladas com afagos ou pancadas – o
que poderia ser uma razão para muitas delas 'convidarem' à punição.
As nádegas e a região anal são zonas erógenas, e essa forma de
estimulação pode dar origem a tendências sadistas ou masoquistas.


In Robert Goldenson & Kenneth Anderson. Dicionário de Sexo.
São Paulo: Ática, 1989.


"Concluí, mais tarde, que se há uma coisa tão ruidosa quanto
o sofrimento, é o prazer." Marcel Proust em Sodoma e Gomorra,

por aly . 2:20 AM .

Segunda-feira, Maio 11, 2009


Don Pig de Bourbon em charge de Jamón Tociño


Folha - A propósito de um de seus primeiros livros, Libertação Animal, e
a gripe suína, o sr. acha que há uma lição moral nessa quase pandemia?

Singer - Não creio. A razão moral para não colocar porcos nas "fábricas rurais"
em que estão é que é uma vida horrível para os porcos, e não há necessidade
de que os tratemos assim. Talvez uma consequência secundária de colocar
milhões de animais juntos em condições precárias é que eles cultivam novas
doenças, que podem gerar pandemias globais.

Mas seja isso verdade ou não, o fato é que, para começar, não deveríamos
estar tratando os animais dessa maneira.

(Em entrevista à Folha, o filósofo australiano Peter Singer diz que o
consumo de luxo aumenta a pobreza: no caderno Mais da F. de SP,
domingo, 10 de maio de 2009)


"Mata o teu porco, e conhece teu corpo."
Provérbio português.

"Chi ha un solo figlio lo fa matto, e chi ha un solo porco lo fa grasso."
Provérbio da Sardenha,

por aly . 12:42 AM .

Quinta-feira, Maio 07, 2009


Orson Welles e Jeanne Moreau, num fotograma do filme dele, Falstaff, 1965


Todos os personagens que representei, e de quem estamos falando,
são formas variadas de Fausto, e sou contra todos os Faustos, porque
acho impossível um homem ser grande a menos que admita haver
algo maior que ele. Pode ser a Lei, pode ser Deus, pode ser a Arte,
ou qualquer outra concepção, mas deve ser maior que o homem.

Interpretei toda uma linha de egotistas, e detesto o egotismo, o do
Renascimento, o de Fausto, todos os egotismos. Mas, evidentemente,
um ator fica apaixonado pelo papel que faz: é como um homem beijando
uma mulher, dando-lhe algo de si mesmo. Um ator não é um advogado
do diabo, é um amante, um amante de alguém de outro sexo. E Fausto,
para mim, é como um outro sexo.

Para mim, há dois grandes tipos de humanidade no mundo, e uma delas
é Fausto. Pertenço ao outro campo, mas, ao representar Fausto, quero
ser justo e leal em relação a ele, dar-lhe o melhor de mim mesmo e os
melhores argumentos que possa encontrar, já que vivemos num mundo
feito por Fausto.

Nosso mundo é Faustiano.

Conversas com Orson Welles in André Bazin.
Orson Welles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.


— Em todos os seus filmes há de fato muita generosidade.

— Para mim, esta é a virtude essencial. Detesto todas as opiniões
que privam a humanidade do menor de seus privilégios; se uma
crença qualquer exige que se renuncie a algo humano, eu a detesto.
Sou, portanto, contra todos os fanatismos, detesto os slogans políticos
ou religiosos. Detesto qualquer um que pretenda suprimir uma nota
que seja da gama humana: devemos poder sempre fazer vibrar todos
os seus acordes. O. Welles,

por aly . 6:46 AM .

Sexta-feira, Maio 01, 2009

HOLLYWOODIANAS III


Metro Goldwin Mayer Presents: Primo Carnera & Jean Harlow em Bombshell,
no Brasil, 'Mademoiselle Dinamite': dir. Victor Fleming, 1933



Sin palabras,

por aly . 11:56 PM .

Sexta-feira, Abril 24, 2009


Robert Dennis Crumb: Autorretrato*, 1994


Nasceram nesta data: o Bandido da Luz Vermelha, Jack the Ripper,
Landru, a Fera da Penha, Scarface, Ian Brady e aly, entre outros —
o que revela a boa conjunção astral do outonal dia 24 de Abril.


*(Assim grafada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Academia Brasileira de Letras - 5ª ed. - São Paulo: Global, 2009)
"Que língua, a nossa!" — J. P. Oliveira Neto de Castro Mello Filho



"Nada é mais vago do que as impressões relativas à identidade
de um indivíduo". Edgar Allan Poe in O Mistério de Marie Rogêt,

por aly . 12:04 AM .

Segunda-feira, Abril 20, 2009


Foto de J.P.O. Taylor: Matinée


O cinto, a roupa íntima purpúrea, a túnica
Lacônia, e as contas de ouro em seus adornos,
tudo Nicônoe levou de vez, divino
rebento dos Amores e das Graças.
Pois a Priapo, que a julgou ser a mais bela,
tosão de gamo oferta e áureo cântaro.

Hédilo (A.P., 6, 292) – século III a. C.
in Falo no Jardim: Priapéia Grega, Priapéia Latina.
Tradução do Grego e do Latim, Ensaios Introdutórios,
Notas e Iconografia por João Angelo Oliva Neto.
São Paulo: Ateliê, Campinas: UNICAMP, 2006.


Dístico
Que outros me louvem – seu louvor é cinzas.
Que me reproves – teu rancor alvíssaras.
Ana Akhmátova, em 1931,

por aly . 5:08 AM .

Terça-feira, Abril 14, 2009


Foto de Helmut Newton: Sigourney Weaver, 1983


RESSENTIMENTO

O ressentimento é um afeto de forte apelo dramático. Funciona
bastante bem como elemento polarizador da ação, no cinema ou
no teatro, e também para promover a identificação do espectador
com alguns personagens vistos como vitimados pelas circunstâncias
ou, principalmente, pelos outros.

O personagem ressentido – pensem em Tio Vânia de Tchekov, por
exemplo – costuma angariar simpatias; suas queixas são repetitivas
e fundamentadas, e se ele se coloca como "perdedor", ou como alguém
que ficou para trás na dinâmica das relações sociais, isto se dá em
razão de sua pureza moral, em sua inabilidade para jogar o jogo das
conveniências e das aparências.

O ressentido é, por um lado, um que vê a si mesmo como moralmente
melhor do que os outros – por outro lado, e por isto mesmo, é um
vingativo justificado, coberto de razões.

Maria Rita Kehl: Desejo e Liberdade – A Estética do Ressentimento.
In Giovanna Bartucci (org.). Psicanálise, Cinema e Estéticas de
Subjetivação.
Rio de Janeiro: Imago, 2000. (excerto capitular)


"A vida é uma farsa encenada por todos". Jean-Nicolas Arthur Rimbaud,

por aly . 4:00 PM .

Terça-feira, Abril 07, 2009


Foto de Andy Julia: Paris, 2007


O PONTO DE DEMÊNCIA

As pessoas só têm charme em sua loucura, eis o que é difícil de ser
entendido. O verdadeiro charme das pessoas é aquele em que elas
perdem as estribeiras, é quando elas não sabem muito bem em que
ponto estão. Não que elas desmoronem, pois são pessoas que não
desmoronam. Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno
grão de loucura da pessoa, não se pode amá-la. Não pode amá-la.
É aquele lado em que a pessoa está completamente...

Aliás, todos nós somos um pouco dementes. Se não se captar
o ponto de demência de alguém... Ele pode assustar, mas,
quanto a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demência
de alguém é a fonte de seu charme.

O Abecedário de Gilles Deleuze in Entrevista com Claire Parnet, aqui.


"Nenhum artista suporta o real". Friedrich Wilhelm Nietzsche,

por aly . 9:43 AM .

Terça-feira, Março 31, 2009


Foto-estúdio de Iodeyo Mayami: Garota de Ipanema, 1966


Zé da Farmácia: 1910-1972 - Farmacêutico (verbete)

Ele se postava à porta da farmácia (qualquer uma das muitas em que trabalhou em
Ipanema) e, quando um dos grandes aviões passava na calçada, comentava
gaiatamente com algum amigo: "Já espetei muito essa bundinha". E não estava
mentindo, em seus quase quarenta anos como farmacêutico em Ipanema, desde 1934,
Zé da Farmácia (seus clientes nunca o conheceram pelo nome verdadeiro) espetou os
bumbuns mais premiados do Brasil – quando suas donas ainda estavam na idade de
levar injeção na nádega. Espetou também os de homens futuramente famosos, mas
esses ele não se preocupava em recensear.

Aos marmanjos Zé da Farmácia prestava outro tipo de serviço, de primeira necessidade
no bairro: ressuscitava-os dos monumentais porres com um coquetel injetável, inventado
por ele. Compunha-se de complexo vitamínico, um antidepressivo e um antitóxico para o
fígado. A esse coquetel reconstituinte submeteram-se, durante décadas, Antonio Carlos
Jobim, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Roniquito de Chavalier, Zequinha Estelita,
Hugo Bidet, os alunos de Sinhozinho – ah, ponha logo aí: toda Ipanema.

O coquetel devia funcionar porque Zé da Farmácia (ele próprio um bebum da primeira
divisão) o aplicava em si próprio.

Ruy Castro in Ela é Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema.
São Paulo: Cia das Letras, 1999.


"Com o galope espumacento das ondas em frente, a convulsão de titãs petrificados
dos montes ao fundo e a atmosfera de névoa - pela primeira vez vimos uma daquelas
paisagens de Shelley, em que a natureza parece findar-se no inebriamento espiritual
de sua própria luxúria". João do Rio ao descortinar do Arpoador - acompanhado de
Isadora Duncan - a praia de Ipanema em 1916,

por aly . 1:23 AM .

Quarta-feira, Março 25, 2009


Arte de Giorgio Lacani: Inteligência Artificial, 2009


SOUBE QUE VOCÊS NADA QUEREM APRENDER

Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – à sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Você nada precisa aprender. Assim como é
Pode ficar.

Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvi dizer, são incertos
Você tem seus líderes, que lhe dizem exatamente
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Você não precisa levantar um dedo.
Sem dúvida, se fosse diferente
Você teria que aprender.

Bertolt Brecht. Poemas: 1913-1956.
Rio de Janeiro: Editora 34, 2006.
Seleção e tradução: Paulo César de Souza


Ouçam esta canção, Mack the Knife, com música de Kurt Weill
e letra de Brecht, tocada e cantada por Louis Armstrong, aqui,

por aly . 8:11 AM .

Quarta-feira, Março 18, 2009


Foto de Ira Chernova: Certain Shade of Red, 2009


interdito

do teu não-dito
medito teu grito

aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)


"Alguma coisa está dilacerada, aquilo continua a estar muito
presente e torna-se ausente. É nesse esquartejamento, entre
uma extrema presença e uma extrema ausência, que consiste
a dor". J.-D. Nasio in La douler d'aimer,

por aly . 12:41 AM .

Quarta-feira, Março 11, 2009


Fuck You por Marion Peck, óleo s/tela, 2008


A PROSA DE VALÉRY

"Valéry dizia que jamais produziria um romance por se
recusar a escrever uma frase como 'A Marquesa saiu
às cinco da tarde'.

"Ocorre que se a Marquesa não sai de tarde, ela não
pode morrer na página 396".

Francisco Bosco no Suplemento Cultural do Estadão,
Domingo, 1º de março de 2009.

Nota d'aly:

Na página 15 da narrativa A Noiva Roubada
(in 47 Contos de Juan Carlos Onetti.
São Paulo: Cia das Letras, 2006):

"Moncha Insaurralde saía quase diariamente de sua casa,
de táxi ou no Opel, sempre vestida com o cheiro e o aspecto
de eternidade (...)".

Na página 18 do mesmo conto é narrada a morte da
protagonista:

"Porque Moncha Insaurralde se encerrara no porão de sua
casa, com alguns – mas não suficientes – barbitúricos, com
seu vestido de noiva que podia servir-lhe, na placidez velada
do sol do outono santa-mariense, como pele verdadeira para
envolver seu corpo magro, seus ossos harmônicos. E começou
a morrer, cansou-se de respirar." J. C. Onetti,

por aly . 2:07 AM .

Sábado, Março 07, 2009


Animation video by Christina Menezes, over Alberto Lyra´s poem :::: English version by Olga Raphaelli Soto



SALPICAR

Revolver o revolto
reinventando récuas
de rostos sem rastros
de rima e rímel.

Desenovelar o novelo
novela de cantos sem reverso.
Desencantar os cantos obscuros
Inverter a invenção do verso.

Penetrar, picar, com plúmbeos projéteis
o passado de pesados passos.

aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)

Poema publicado originalmente aqui.
O vídeo, entre outros, está, também,
na webpágina de Maria Christina
Menezes, aqui.


Chris, agradecimento de coração sarapintado,

por aly . 6:33 PM .

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

FOTO DE PENÉLOPE CRUZ EM 2005


                                                 

Esta é a mão
que por vezes tocava
em teus cabelos.*





*Jorge Luis Borges: Dezessete Haikus in Poesia.
São Paulo: Cia das Letras, 2009.
Tradução: Josely Vianna Baptista


"Fotografia: a mais delicada de todas as atividades predatórias." Susan Sontag,

por aly . 12:28 AM .

Sábado, Fevereiro 21, 2009


Cartaz espanhol do filme Dead Ringer: no Brasil, Alguém Morreu em Meu Lugar, 1964



O poeta propõe seu epitáfio

Por ter mentido muito ganhou um céu
mesquinho, a ser refeito todos os dias.
Por ser traidor até com a traição, era amado
pelas pessoas honradas.
Exigia virtudes que não dava
e sorria para esquecerem.
Não viveu. Viviam-no, um corpo impiedoso
e uma cadela sedenta, inteligência.
Por só acreditar na beleza, foi
lixo entre os lixos,
mas ainda olhava para o céu.
Está morto, felizmente. Já deve haver
algum outro como ele.

Julio Cortázar in Último Round, Tomo II.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.


"A morte rouba toda a seriedade à vida." Paul Valéry,

por aly . 1:47 PM .

Domingo, Fevereiro 15, 2009


Pablo Picasso: Peintre avec un Modèle qui Boude. Etching & drypoint on Rives, edition 50, 1968 -
Christie's Collection



Da série O Artista & seu Modelo, nº 5,

por aly . 8:48 PM .

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

HOLLYWOODIANAS II


Harry Cohn, chefão da Columbia Pictures, em foto de Allan Grant para a revista LIFE, 1955


Harry Cohn, dirigente da Columbia, odiava seu irmão Jack, presidente da
companhia, e Jack retribuía o sentimento da forma que só um irmão é capaz.

Uma vez, Jack chegou a tentar se livrar de Harry fazendo uma visita secreta
a A. P. Giannini do Bank of América, que financiava Cohn, para lhe dizer que
Harry era perdulário e irresponsável. Giannini sorriu, compreensivo, depois
telefonou para Harry e disse: "Acho que devo lhe contar quem acabou de
me visitar".

Harry não foi, portanto, muito receptivo quando Jack lhe sugeriu que a
Columbia tentasse fazer um filme bíblico.

"Não meta o nariz na minha parte dos negócios", disse Harry.

"Só pensei que podíamos fazer um filme bíblico, só isso", disse Jack.
"Tem um monte de histórias boas na Bíblia".

"Que diabos entende você da Bíblia?", desafiou Harry.
"Aposto que você não sabe nem o Pai Nosso*.

"Claro que sei", disse Jack.

"Sabe o cacete!", disse Harry. "Aposto cinquenta paus que você não
reza o Pai Nosso. Vamos lá – aposte o dinheiro ou cale a boca".

Apostaram cinquenta dólares.

"Tudo bem, reze", desafiou Harry.

"Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...", **
começou Jack, com alguma hesitação.

"Chega", disse Harry, entregando os cinquenta dólares com relutância.
"Achei que você não soubesse".

* No Original, Lord´s Prayer. (N. T.)
** Oração infantil americana. (N. T.)


In Otto Friedrich: A Cidade das Redes - Hollywood nos Anos 40.
São Paulo: Companhia das Letras, 1988.


De Dorothy Parker elogiando um livro sobre Hollywood:
"Nunca pensei que alguém fosse capaz de botar Hollywood;
a verdadeira merda dela; entre duas capas."
,

por aly . 12:02 AM .

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009


Foto de Philippe-Piteck de Mann


O PORNOGRAMA

O que Sade produz são pornogramas. O pornograma não é apenas
a marca escrita de uma prática erótica, nem mesmo o produto de um
decalque dessa prática, tratada como uma gramática de lugares e de
operações; é por uma nova química do texto, a fusão (como que sob
o efeito de uma temperatura ardente) do discurso e do corpo: ("Aqui
estou completamente nua - diz Eugénie às suas professoras - dissertai
sobre mim o tempo que quiserdes"), de modo que, atingindo esse
ponto, a escrita seja aquilo que regula a troca do Logos pelo Eros,
e que seja possível falar da erótica como gramático e da linguagem
como pornógrafo.

Roland Barthes in Sade, Fourier, Loiola. Lisboa: Edições 70, 1979.


"Os requintes vêm apenas da delicadeza; portanto é possível
ter muitos, embora sejamos movidos por coisas que parecem
excluí-la". Marquês de Sade,

por aly . 12:30 AM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





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14 novembro 2002



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