Sábado, Novembro 21, 2009

HITLER2
Cartaz de Andreas Spielvogel: O Pintor Adolf Hitler ► Viena (Vanishing point), 2007


Da série — A Ilustração por Ilustradores (2)


"Não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um determinado efeito".
Joseph Goebbels,

por aly . 5:09 AM .

Domingo, Novembro 15, 2009

VALENTINA-CREPAX2
Valentina por Guido Crepax


1. V. NOTAS DEL SUBTERRANEO 12

2. Y tentaba la demostración de que el caballero sin tacha
es el de la mancha, siempre mal tratando de mantener a
raya a las palabrabavuconas. Y a fin de cuentos, su brazo
diestro ya enlazándote, trataba de convencerte papel en
mano libre de que todo era literatura (tú lo decias mejor a
la francesa) o todo non era literatura. Y ahora sí a la acción
a la palabra blandiendo uno de sus papelotos garabateados
y meccanografiados. Fíjate, decia señalando con el índice de
la mano en tu cintura, segundos antes de que cayeseis en la
cama sempisterneamente deshecha - su verdadera litera
literaria o prusteico lecho de procusto, no? Fíjate, te habia
dicho al oído o lo estaba diciendo cuando caíais:

cada línea tachada es una perfecta y censurable story line

Tableteo toblatao en la noche. Tata-Tat-Tat-Tat-T' a la T' a-Tap!
Tape-Tap-Taps-Tat! La mithraillette Mayakovskienne? Catabola.
Cataybola, marcopulador. Ma Chine à écrire, où je machine/Your
Taipeh-writer? Ai! Shih! Shu! Shilienzo! I' m now very bussy with
my T'ai-p'ing!

Julián Ríos in Larva: Babel de una Noche de San Juan. Madrid: Mondadori, 1992 ズ


"Fe de erratas: Donde dice orgasme à bord, debe decir smorgasbord". J. Ríos, extratexto,

por aly . 3:42 AM .

Domingo, Novembro 08, 2009

J-BESOINE2
Desenho de Jacqueline Besoine: Eu Preciso Ficar Sozinha! ♥ 2009


AFONSO EANES DE COTOM (Século XIII)


Abadessa, oí dizer

Abadessa, oí dizer
que érades mui sabedor
de todo bem, e, por amor
de Deus, querede vos doer
de min, que ogano casei,
que ben vos juro que non sei
mais que um asno de foder.

Ca me fazen en sabedor
de vós que avedes bom sen
de foder e de todo ben;
ensinade-me mais, senhor,
como foda, ca o non sei,
nen padre nen madre non ei
que m' ensin', e fiqu'i pastor.

E se eu ensinado vou
de vós, senhor, deste mester
de foder e foder souber
per vós, que me Deus aparou,
cada que per foder, direi
Pater Noster, e enmentarei
a alma de quen m'ensinou.

E per i podedes gaar,
mia senhor, o reino de Deus:
per ensinar os pobres seus
mais ca por outro jajuar,
e per ensinar a molher
coitada, que a vós veer,
senhor, que non souber ambrar.

v. 5: ogano: este ano; v. 14: fiqu'i pastor: fiquei como
um jovem, sem experiência; v. 18: aparou: proporcionou;
v.20 enmentarei: farei referência, encomendarei; v. 25 jajuar:
jejuar; v. 28: ambrar: fornicar.



Comentário de Lênia Márcia Mongelli (excerto)

A cantiga apresenta a burla contra a abadessa, feita de forma
explícita pelo verbo foder, numa mistura jocosa entre o sagrado
e o profano. A estrofe I dá bem a mostra de como se constrói o
processo de inversão dos valores: os vv. de 1a 6 são modelares
na petição de auxílio para um recém-casado, melodramático e
enfático (por amor de Deus) em seus argumentos de inocência;
o v. 7 destrói abruptamente a impressão, ao revelar a verdadeira
intenção de súplica. Note-se que o maldizer não se restringe
apenas à esfera da foda: a comparação do "eu" discursivo com
um asno faz despencar a linguagem elevada.

Cantigas de escárnio e maldizer in Lênia Márcia Mongelli.
Fremosos Cantares: Antologia da Lírica Medieval Galego-Portuguesa.
São Paulo: Martins Fontes, 2009 ズ

"Para o mau fodedor, até o saco atrapalha". Dito popular,

por aly . 6:40 AM .

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

LA-LUNAMIII364r
La Luna: manuscriptum do sec. XV ► Universitätsbibliothek Salzburg — M III 36 - 239r


O CAÇADOR

O caçador foi à caça,
À caça, como soía;
Os cães já leva cansados,
O falcão perdido havia.
Andando se lhe fez noite
Por uma mata sombria,
Arrimou-se a uma azinheira,
A mais alta que ali via.
Foi a levantar os olhos,
Viu coisa de maravilha:
No mais alto da ramada
Uma donzela tão linda!
Dos cabelos da cabeça
A mesma árvore vestia,
Da luz dos olhos tão viva
Todo o bosque se alumia.

Ali falou a donzela,
Já vereis o que dizia:
— "Não te assustes cavaleiro,
Não tenhas tamanha frima.
Sou filha de um rei c'roado,
De uma bendita rainha.
Sete fadas me fadaram,
nos braços de mi' madrinha,
Que estivesse aqui sete anos,
Sete anos e mais um dia;
Hoje se acabam nos anos,
Amanhã se conta o dia.
Leva-me, por Deus to peço,
Leva em tua companhia."
— "Espera-me aqui, donzela,
Té amanhã, que é o dia;
Que eu vou tomar conselho,
Conselho com minha tia."
Responde agora a donzela,
Que bem que lhe respondia!
— "Oh, mal haja o cavalheiro,
Que não teve cortesia:
Deixa a menina no souto
Sem lhe fazer companhia!"

Ela ficou no seu ramo,
Ele foi-se a ter com a tia...
Já voltava o cavaleiro
Apenas que rompe o dia;
Corre por toda essa mata,
A enzinha não descobria.
Vai correndo e vai chamando,
Donzela não respondia;
Deitou os olhos ao longe,
Viu tanta cavalaria,
De senhores e fidalgos
Muito grande tropelia.
Levavam na linda infanta,
Que era já contado o dia.
O triste do cavaleiro
Por morto no chão caía;
Mas já tornava os sentidos
E a mão à espada metia:
— "Oh, quem perdeu o que eu perco
Grande penar merecia!
Justiça faço em mim mesmo
E aqui me acabo co'a vida."

"O romance do Caçador pertence à poesia popular portuguesa,
é de imemorial antiguidade; e como a tal lhe dou aqui lugar entre
as relíquias mais originais de nossa primitiva literatura".
Almeida Garrett

In Romanceiro de Almeida Garrett. Selecção, organização, introdução
e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira. Lisboa: Ulisseia, 1996 ズ


"Dedico esse trabalho à memória de
Rita Augusta Machado Tarracha, a Avó
que me cantava romances e me ensinou
a ler." Maria Ema Tarracha Ferreira,

por aly . 3:01 PM .

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Tango nº 1

mwk_1972_interior2
Diseño de Michael W. Kaluta, 1972


(Da série — A Ilustração por Ilustradores)


"No olvide usted, señora, la noche en que nuestras
almas lucharam cuerpo a cuerpo". Francisco de Aldana,

por aly . 3:36 AM .

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

ANTONIO-MARIA.jpg
Antônio Maria — História da Música Popular Brasileira Nº. 36: 1971


ANTÔNIO MARIA + VINICIUS DE MORAES

Não era o ritmo que se receita — toda a noite um cooper do Leme ao Posto 6 —
para um cardíaco. Pior: um cardíaco orgulhoso. Uma vez, lá pelas seis da manhã,
depois de cumprir um desses roteiros, Maria saía da última boate com Vinicius
de Moraes, quando cruzaram com um grupo de homens em idade avançada
fazendo ginástica na praia. Julgaram a cena lamentável. Os movimentos, para
quem balançava na água do uísque noturno, pareciam ridículos. Os calções,
pateticamente coloridos. O professor, barrigudo.

— Vamos fazer um pacto, sugeriu Maria, em tom grave.
— Juramos neste momento que jamais participaremos de uma calhordice como
a desses sujeitos. Jamais faremos qualquer esforço físico desnecessário. Topa?

Diante da aprovação de Vinicius, apertaram-se as mãos, lançaram um novo
olhar para os velhos ginastas e gritaram juvenis:

— Seus calhordas! Seus calhordas!

In Joaquim Ferreira dos Santos. Um Homem chamado Maria.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2005 ズ


Antonio Maria era brigão, bebia e trabalhava muito, e era cardiopata;
cardisplicente, como ele dizia de si mesmo; mas era, principalmente,
um apaixonado por suas mulheres, as que teve na sucessão do tempo.
Para mim, ele morreu de amor aos 42 anos. Esse lado amoroso é revelado
em suas músicas e em suas crônicas, como neste trecho d'abaixo:

"Não há sensação mais curiosa que a de encontrar a ex-namorada pela
primeira vez em companhia de seu atual namorado. Por mais que a gente
lhe olhe o rosto, não lhe vê as feições. É uma mulher sem olhos, sem nariz
e sem boca, que a gente só reconhece pela falta de ar que nos causa sua
presença". Antônio Maria
,

por aly . 2:01 PM .

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

HELMUT-NEWTON-HISTNEW
Foto de Helmut Newton in Big Nudes, 1990 (histérica com sintoma kaiseriano)


HISTERIA

Desde Freud, a psicologia busca uma explicação para a histeria nas teorias da
personalidade volátil, histriônica; a psicanálise a atribue a conflitos edipianos.
Apesar das negativas de que a histeria seja uma enfermidade feminina, as questões
da feminilidade ainda são centrais na teoria psicanalítica. O psicanalista britânico
Gregorio Kohon afirmou que todas as mulheres passam, em seu desenvolvimento
psicossexual, por uma fase histérica em que transferem seus desejos da mãe para
o pai. Segundo Kohon, "no fundo do coração, a mulher permanece uma histérica
para sempre.*

A psicanalista francesa Janine Chasseguet-Smirgel formulou a hipótese da "aptidão
femina para a somatização". As mulheres, declara ela, transformam emoção em
manifestações físicas porque têm sexualidade mais difusa que a masculina. Em vez
de centrar-se num único órgão visível, a sexualidade feminina torna o corpo inteiro
disponível para o simbolismo sexual.**

*Gregorio Kohon. Reflexions of a Dora: The Case of Hysteria. International Journal
of Psychoanalys, 65 (1984): 73

**Janine Chasseguet-Smirgel. The Femininity of the Analyst in Professional Practrice.
International Journal of Psychoanalys, 65 (1994): 169-78.


In Elaine Showalter. Histórias Histéricas: A Histeria e a Mídia Moderna.
Rio de Janeiro: Rocco, 2004. Tradução: Heliete Vaitsman ズ


"No histérico, o medo fundamental é o da rendição psíquica ao objeto. O histérico
obriga seu ambiente a agir sobre ele, ou para ele, mas permanece inacessível a
reciprocidade de um diálogo psíquico e de uma partilha". Jean-Jacques Deschamps,

por aly . 2:12 AM .

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

GORILA-WOMAN-letteri
Arte de John MacAcor: O Gorila e Sua Amada, 1936


Goleada de livros, claro, traz Dawkins

Continua a invasão do mercado editorial, principalmente de língua inglesa, por livros
sobre Charles Darwin; mas no Brasil, por enquanto, poucos chegaram. Além do livro
de Steve Jones, a Record lança em novembro o novo da dupla de biógrafos Adrian
Desmond e James Moore, A Causa Sagrada de Darwin. A Companhia das Letras
anuncia para o mesmo mês outro livro do controverso Richard Dawkins, O Maior
Espetáculo da Terra
. E a Larousse publicou O Jardim de Darwin, de Michael Boulter.

De autores brasileiros, um dos dignos de nota é A Goleada de Darwin, de Sandro de
Souza, também da Record. No exterior, além dos já comentados como Evolution
– The First Four Billion Years
, editado por Michael Ruse e Joseph Travis, e Angels
and Ages – A Short Book About Darwin, Lincoln, and Modern Life
, do jornalista cultural
Adam Gopnik, há incontáveis títulos. Entre eles se destacam pela qualidade Darwin’s
Universe
, de Richard Milner (University of California Press), e Darwin’s Armada, de Iain
McCalman (W. W. Norton & Company).

Daniel Piza, no Estadão de domingo, aqui ۝


Eu sei que nós homens viemos do macaco e sei até mesmo que a
mulher tb veio dele. Mas é preciso ficar falando nisso a toda a hora?,

por aly . 12:10 AM .

Terça-feira, Outubro 06, 2009

castrati_choristers2
The castrati choristers: Fluke, Entwhistle, Catflap and Lozenge in 1886


OS CASTRADOS E AS MULHERES

"Quando já não estivermos cá (os castrados), o
bel canto poderá entoar também o seu Miserere".
Allegri


Já no século XVII, Vittori fazia delirar a multidão nos seus aparecimentos públicos
ou privados: lutava-se para entrar nas igrejas onde cantava e tomavam-se de
assalto os palácios onde atuavam perante a aristocracia. Ferri levantava ondas
de entusiasmos nunca vistas ainda: à sua chegada à Florença, mais de 4
quilômetros antes das portas da cidade, veio ao seu encontro um cortejo para o
acompanhar e o levar em triunfo. Doutra vez, à saída de um espetáculo, um
mascarado (homem ou mulher?) meteu-lhe num dedo um anel provido de uma
esmeralda de valor incalculável.

Para eles, como para seus sucessores, as efusões das damas da nobreza não
tinham limites, lançavam-lhes para o palco coroas de louros, dísticos ou sonetos
inflamados e não andavam sem um retrato do seu castrado favorito sobre o
coração.

Marchesi, a despeito da arrogância dos seus caprichos e do seu cabotinismo, foi
quiçá o cantor mais adulado pelo belo sexo. A sua juventude, beleza, e toda essa
"poeira nos olhos" que ele distribuía com tanta arte punham as mulheres em
estado quase de transe.

Stendhal conta-nos que, em Viena, Marchesi se tornara a mascote da corte: as
damas traziam ao pescoço uma medalha com a sua efígie, uma em cada braço e
duas mais cosidas aos sapatos. Mme. Vigée Lebrun fez um comentário análogo a
respeito de Crescentini: "Enfim, numa palavra, ele substiuiu Marchesi, por quem
todas as romanas estavam loucas, de tal forma que, na última representação que
deu, elas confessavam-lhe alto o seu desgosto: várias choravam mesmo
amargamente, o que se tornou um segundo espetáculo".

In Patrick Barbier. História dos Castrados.
Lisboa: Livros do Brasil, 1991 ■ (fragmento capitular) ズ


"Despira os trajes de teatro e vestia um corpete que desenhava um talhe esbelto
e valorizava a saia de balão do vestido de cetim, bordado com flores azuis. O peito
resplandecia de brancura por entre uma renda que, graciosamente, lhe dissimulava
os tesouros". Honoré de Balzac a descrever Zambinella, um castrato, que seduz um
um escultor francês a visitar a corte romana em 1758, no livro Sarrasine,

por aly . 1:45 AM .

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Manuel Bandeira_1966
Manuel Bandeira em Teresópolis, RJ, 1966


PARA MANUEL BANDEIRA
COM UM PRESENTE


Eis, páginas abertas, os teus livros.
Desejo, é claro, agradecer-te, embora
não possa esquecer de que nós dois
falamo-nos bem pouco até agora.

Dois poetas sem par, embaraçados
porque trocar palavras é difícil.
Mas como disse Joe McCarthy: "Nada
ouvi mais inaudito do que isso!"

Tradutor cada qual da língua do outro!
(Um título que julgo merecer.)
O maior, ainda jovem esculpido
em bronze e já famoso em seu mister,

a quem a fama — e Miss Brasil — sorriram!
É homem de ficar sem dizer nada
quem, galante, verteu Elinor Glyn
numa prosa bem mais sofisticada —

e pôs na boca do Tarzã, que mal
falava, certa graça do latim,
refinando o selvagem de Edgar Burroughs?
É justo que se cale alguém assim?

Não sou, no que me tange, raconteur,
sou fraca em minhas réplicas não raro;
meus amigos, porém, de língua inglesa
receio que dirão que jamais paro:

que falo e falo sempre, às vezes dias
a fio, sem dar sinal que a conversa
possa cessar, de que me conviria
trocá-la por qualquer coisa diversa.

Conversas e conversas que melaram!
Saibas porém: jamais achei que para
dizer "Teu livro é bom, eu gostei muito",
damascos sejam a expressão mais clara;

tampouco me parece que a conserva
possa implicar: "Ofuscas teus rivais"...
Não acho não, porém recebe e passa
no pão meus elogios cordiais.

Que fale ao teu estômago de poeta,
Manuel, o doce mudo — docemente.
Aceita uma vez mais minha amizade
e um pote de geléia de presente.

Elizabeth Bishop in Poesia Alheia: 124 Poemas
Traduzidos
— por Nelson Ascher. Rio de Janeiro:
Imago, 1998 (edição bilíngue) ズ


Nota d'aly:
Flora Süssekind foi quem descobriu esta carta-poema nos
arquivos de Manuel Bandeira e a localizou no tempo — ano
1955 — como se pode ler aqui,

por aly . 12:50 AM .

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

1740-Joan Crawford & Robert Montgomery
Joan Crawford e Robert Montgomery em Our Blushing Brides: dir. Harry Beaumont, 1930



DO PUDOR


O pudor proporciona prazeres muito agradáveis ao amante; faz
com que ele sinta que leis estão sendo transgredidas por ele.

E às mulheres prazeres mais embriagadores: como eles fazem
vencer um hábito poderoso, lançam maior perturbação na alma.
O conde de Valmont encontra-se à meia-noite no quarto de
dormir de uma bela mulher; isso lhe acontece todas as semanas,
e a ela, talvez, uma vez a cada dois anos; a raridade e o pudor
devem, portanto, proporcionar às mulheres prazeres infinitamente
mais intensos.

O inconveniente do pudor é que ele leva continuamente à mentira.

O excesso de pudor e sua severidade desencorajam o amor nas
almas ternas e tímidas, justamente aquelas que são feitas para
dar e sentir as delícias do amor.

Entre as mulheres ternas que não tiveram vários amantes, o pudor
é um obstáculo ao desembaraço das maneiras, é o que as faz correr
o risco de se deixarem levar pelas amigas que não têm a mesma falta
a se censurarem. Elas dão atenção a cada caso em particular, em vez
de recorrerem cegamente ao hábito. Seu pudor delicado comunica a
suas ações algo de constrangido; de tanta naturalidade, parecem não
ter naturalidade; mas essa falta de jeito tem algo da graça celeste.

Stendhal in Do Amor. São Paulo: Martins Fontes, 1993
(excertos do capítulo) ■ Tradução: Roberto Leal Ferreira ズ


"O pudor é tão necessário aos prazeres que é preciso conservá-lo
mesmo nos momentos destinados a perdê-lo". Anne Lambert,

por aly . 1:18 AM .

Sábado, Setembro 19, 2009

the-temptation-of-matthias-grunewald-2
Matthias Grünewald: A Tentação de Santo Antão, c. 1515 (detalhe) ►Musée d'Unterlinden, Colmar


NASCIMENTO

O santo, hoje em dia, vive e lê na cidade, no meio do asfalto a perder de vista,
alimentado de regime para o estômago fraco e de comidas destituídas de gosto
pela agro-indústria alimentar ou indústria farmacêutica, move-se na luz unitária
de eletricidade que impede até a noite de chegar de novo ao dia, respira só os
cheiros de gasolina de querosene e, sobretudo, não conhece nada além da escrita,
palavras-imagens que cobrem de ponta a ponta a cidade desértica, paredes, telas,
painéis, lojas, veículos, em breve, o céu, o santo enfim existe somente no verbo
que exige, para uma tal existência, ascetas que não tenham outra ciência senão a
do verbo: lógicas, mídias, gramáticas, anúncios, fórmulas, códigos... informação em
todos os sentidos, cenobitas que demonstram que o cinza da cidade e o fedor de
que se impregnam nunca os irritam mais do que as frases e a sintaxe. Vitória da
razão: o damasco já não tem outro gosto senão o da palavra que entra na boca
para dizê-lo.

A cidade é povoada de eremitas que só têm uma língua.

Daí, vivemos no meio de uma imensa e coletiva tentação de santo Antão. Para criar
uma cultura, é preciso um corpo e sentidos. A língua ou a inteligência artificial
produzem uma subcultura, por falta de corpo. O sensível reaparece, sombra teimosa,
infernal, através da abstração imposta, nas imagens e na língua, desfigurado pelo
estrago do desprezo. Sentadas nos festins, as estátuas ou robôs sonham com listas
e ícones.

Anacoretas exaustos, à noite, de trabalho formal e solitário, buscamos um sono
raro, saturados de crimes de tinta vermelha, fascinados frequentadores da gente
do poder, saciados de trepadas ginásticas, empanturrados de rega-bofes de cores
desagradáveis, de todo um banquete instantâneo, quimérico, evaporado à pressão
de um toque.

Esse subfestim perpétuo e desprezível, imaginário, aberto pela pressão linguística,
quem melhor o disse que este que assina o nome esperado: santo Antão?

Michel Serres in Os Cinco Sentidos: Filosofia dos Corpos Misturados (vol. I)
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 — tradução: Eloá Jacobina (excertos) ズ


"Nenhuma cultura atingiu o grau de ascetismo como a que hoje impõe
a chamada civilização de consumo, nosso banquete." Michel Serres,

por aly . 12:27 AM .

Domingo, Setembro 13, 2009

ODILON-REDON1
Odilon Redon: Je Vis Dessus le Contour Vaporeux d'une Forme Humaine, 1896 ►Art Institute of Chicago


DOIS MOMENTOS DE UM MESMO AMOR EM RILKE

"Mas que é daquele que já sabia? Daquele em cujo coração já se apresentava
a solidão dos amantes? Ele conhecia de antemão a pura face da amada. Ao
fugir às semelhanças familiares que o envolviam, as quais constituíam, traço por
traço, um direito sobre ele, o semblante dela veio a se tornar o seu próprio futuro;
através dos olhos dela, comtemplava o aberto.

"A sua pequena mão pousava calmamente sobre a dela, a qual o conduzia e jamais
dele se apossava. Enquanto crescia, ia ele distinguindo mais e mais a sua alta figura
— naquele tempos ela por vezes aparecia e o examinava como se fosse um dardo de
arremesso.

"E mais tarde, arremessou-o.

"Ah, com que poderia a amante surpreender aquele que, mais do que uma
recordação, tinha a clara consciência disto: desta escolha; a volúpia do braço
que se estende, o ser arremessado — oh, e o tremor ao atingir o alvo."

▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒▒

"De que serviu saber que eu só podia estar feliz e comovido em meu trabalho?!
E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi
à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de
mim mesmo.

"Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para
o lugar mais perto de ti — por mais aí que ele seja grande, sensível jubiloso, ou
timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração de minha vida.

"Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me
que podias abarcar todos os tipos de amor para mim. Ah, controla-te, ......,
resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida,
fortalece-me como pode.

"Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me
atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse,
terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que
terias, não a mim."

In Rainer Maria Rilke. Testamento. São Paulo: Globo, 2009
Prefácio de Helmut Galle. Tradução: Tercio Redondo
(2 fragmentos) ズ


"Rosa, ó contradição pura, volúpia
de ser o sono de ninguém sob tantas
pálpebras". Epitáfio de Rilke em sua
sepultura,

por aly . 5:15 AM .

Domingo, Setembro 06, 2009

MILU-ANITA-PAGE2
Anita Page*: Photo by George Hurrell © MPTV, 1932


MI LUMÍA

Mi Lu
mi lubidulia
mi golocidalove
mi lu tan luz tan tu que me enlucielabisma
y descentratelura
y venusafrodea
y me nirvana el suyo la crucis los desalmes
con sus melimeleos
sus eropsiquisedas sus decúbitos lianas y dermiferios limbos y gormullos
mi lu
mi luar
mi mito
demonoave dea rosa
mi pez hada
mi luvisita nimia
mi lubísnea
mi lu más lar
más lampo
mi pulpa lu de vértigo de galaxias de semen de misterio
mi lubella lusola
mi total lu plevida
mi toda lu
lumía

Oliverio Girondo in Obra Completa. Madrid; Barcelona; Lisboa;
Paris, México (DF); Buenos Aires; São Paulo; Lima; Guatemala;
San José; Santiago de Chile: ALLCAXX, 1999. Raúl Antelo (org.)


Oliverio e Norah

Tive ontem o prazer de abraçar no Hotel Natal dois grandes amigos
argentinos que nos visitam — Oliverio Girondo e Norah Lange. Duas
criaturas unidas em doce pausa de compreensão e amor, o perfeito
ponto-e-vírgula: Oliverio Girondo o ponto, Girondo rotundo a começar
pelo nome, Girondo, ironicamente emboscado em suas barbas "para
dissimular sua eloquência", Girondo redondo, não à maneira mole do
pingo de óleo acomodatício, mas como a ponta do buril que fixa na
placa as linhas essenciais do mundo e da vida; Norah, a vírgula
completando, submissamente feminina, a luz de inteligência,
preservando em poesia as surpresas encantadoras da infância.

A Manhã, 7 de agosto de 1943

In Manuel Bandeira. Crônicas Inéditas 2
São Paulo: CosacNaify, 2009 (fragmento) ズ


* Bisbilho:
"Ms. Page was once promoted as 'the girl with the most beautiful
face in Hollywood,' and the vivacious, golden-haired actress claimed
at the peak of her fame in the late 1920s to have received
marriage proposals by mail from Italian dictator Benito Mussolini".
By Adam Bernstein, Washington Post, Monday, September 8, 2008,

por aly . 12:10 AM .

Sábado, Setembro 05, 2009


Thomas Bernhard em foto de Erika Schmied, 1978


3 PEQUENAS NARRATIVAS DE THOMAS BERNHARD


Hotel Waldhaus

Não demos sorte com o clima e, à nossa mesa, sentaram-se
convidados repugnantes em todos os aspectos. Até nosso gosto
por Nietzsche conseguiram estragar. Mesmo depois do acidente
automobilístico fatal, quando seus corpos jaziam nos caixões na
igreja de Sils, nosso ódio por eles ainda persistia.


Cuidado

Um funcionário do correio acusado de ter assassinado uma mulher grávida
declarou no tribunal não saber porque havia matado a grávida, mas que
havia matado sua vítima tão cuidadosamente quanto possível. A toda
pergunta do juiz, ele sempre respondia com a palavra cuidadosamente,
motivo pelo qual o processo contra ele foi arquivado.

Demais

Um pai de família querido e famoso fazia décadas por seu dito senso familiar
extraordinário
e que, num sábado à tarde, quando por certo o tempo estava
muito abafado, matou quatro dos seus seis filhos, justificou-se no tribunal
alegando que, de repente, os filhos haviam se tornado demais para ele.


In O Imitador de Vozes. São Paulo: Cia das Letras, 2009
Tradução: Sergio Tellaroli ズ


"Diferentes maneiras de olhar uma maçã: a do menino, obrigado
a esticar o pescoço para ver em linha reta a maçã em cima da
mesa, e a do dono da casa que pega na maçã e a estende
livremente ao seu conviva". Franz Kafka in Meditações,

por aly . 7:55 PM .

Sexta-feira, Agosto 28, 2009


Walter Benjamin na Bibliothèque Nationale de France, Paris — foto por Gisèle Freund, 1939


Entrecruzamento de museu e intérieur

M. Chabrillat (diretor do Théâtre de l'Ambigu em 1882) herda certo dia
um museu completo de figuras de cera "instalado na Passage de l'Opéra,
acima do relógio", (talvez o antigo Museu Hartkoff). Chabrillat tem por
amigo um desenhista talentoso, boêmio, sem domicílio à época. Este teve
uma idéia.

No museu havia, entre outras peças, um grupo que representava a visita da
Imperatriz Eugênia aos doentes de cólera em Amiens. À direita, a Imperatriz
que sorri para os doentes, à esquerda, uma enfermeira de touca branca e, numa
cama de ferro, pálido e esquálido, sob lençóis macios e imaculados, um agonizante.
O museu fecha à meia-noite. O desenhista sugere: nada mais fácil do que retirar
cuidadosamente o doente de cólera, colocá-lo no chão e tomar seu lugar na cama.
Chabrillat dá seu consentimento. Ele não tinha grande interesse por figuras de cera.

E assim, por seis semanas, o artista que fora expulso do hotel passa as noites na
cama do doente, acordando todas as manhãs sob o doce olhar da enfermeira e os
olhos sorridentes da Imperatriz, que se inclina sobre ele com as longas mechas de
seu cabelo loiro. Em Jules Claretie. La Vie à Paris, 1883, Paris: p. 301 et séq.

Walter Benjamin: Morada de sonho, Museu, Pavilhão Termal in Passagens.
Belo Horizonte / São Paulo: Editora UFMG / Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2007 (1ª reimpressão). Wille Bolle (organizador): nesta edição
integral de Das Passagen-Werk no Brasil — da edição alemã por Rolf
Tiedemann —, 1167 páginas ズ

"Jacaré parado vira bolsa". Dito popular,

por aly . 12:13 AM .

Sexta-feira, Julho 31, 2009


De Giuseppe Maria Crespi: La Femme à la Puce (Mulher à cata de Pulga) — c. 1720 — no Musée du Louvre


A pulga

Repara nesta pulga e apreende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto alude
Como pecado ou perda de virtude.

Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu a sós.

E embora possas dar-me fim, não dês:
É suicídio e sacrilégio, três
Pecados em três mortes de uma vez.

Mas tinges de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegras e dizes que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.

Então, tua cautela é desmedida.
Tanta honra hei de tomar, se concedida,
Quanto a morte da pulga à tua vida.


John Donne, traduzido por Augusto de Campos
in O Anticrítico. São Paulo: Cia das Letras, 1986.


"Legouis, em Histoire de la Littérature Anglaise, tinha em mente
os inúmeros poemas em que Donne ridicularizava o tema do
amor platônico — basta pensar em The Flea!" Leo Spitzer,

por aly . 3:43 PM .

Domingo, Julho 26, 2009

aly3
— Viu? Até o senhor me odeia.

The New Yorker Cartoons: Terapia. Rio de Janeiro: Desiderata, 2009.
Escolha editorial, prefácio, introdução, posfácio, imprenta e colofão
de Sérgio Augusto.


Nota d'aly:

Es, Ich und Über-Ich


"In der ersten Topik unterschied er das „ Bewusste vom größeren und einflussreicheren
Unbewussten“ und legte dar, wie das Unbewusste das Bewusstsein beeinflusst. In der
zweiten Topik, die er vor allem in seiner Schrift Das Ich und das Es (1923) entwickelte,
beschrieb Freud erstmals seine Theorie über das Es, das Ich und das Über-Ich.Das
Es tritt dabei an die Stelle des Unbewussten. Es bildet das triebhafte Element der Psyche
und kennt weder Negation noch Zeit oder Widerspruch. Damit bezeichnet Freud jene
psychische Struktur, in der die Triebe (z. B. Hunger, Sexualtrieb), Bedürfnisse und
Affekte (Neid, Hass, Vertrauen, Liebe) gründen. Die Triebe, Bedürfnisse und Affekte
sind auch Muster (psychische Organe), mittels derer wir weitgehend unwillentlich
bzw. unbewusst wahrnehmen und unser Handeln leiten. Das Ich: Randgebiet des Es;
bezeichnet jene psychische Strukturinstanz, die mittels des selbstkritischen Denkens und
mittels kritisch-rational gesicherter Normen, Werte und Weltbild-Elemente realitätsgerecht
vermittelt „zwischen den Ansprüchen des Es, des Über-Ich und der sozialen Umwelt mit
dem Ziel, psychische und soziale Konflikte konstruktiv aufzulösen (= zum Verschwinden
zu bringen).“ (Rupert Lay, Vom Sinn des Lebens, 212) Denken, Erinnern, Fühlen,
Ausführen von Willkürbewegungen; Vermittler zwischen impulsiven Wünschen das Es und
des Über-Ichs; sucht nach rationalen Lösungen ist zum größten Teil bewusst Das Über-Ich
bezeichnet jene psychische Struktur, in der die aus der erzieherischen Umwelt verinnerlichten
Handlungsnormen, Ich-Ideale, Rollen und Weltbilder gründen. „Gewissen“ moralische Instanz,
Wertvorstellungen Gebote und Verbote der Eltern und subjektiv empfundene Autoritäten
dienen als Vorbild Vorstellungen von Gut und Böse der Gegenpart zum Es Das Ich und das
Über-Ich entstehen aus dem Es. Die verdrängenden Vorstellungen werden dem Über-Ich
zugeschrieben. Es ist ein Teil des Ich und beurteilt die Gedanken, Gefühle und Handlungen
des Ich. Das Über-Ich entsteht nach Freud mit der Auflösung des Ödipus-Komplexes
(ca. im 5. Lebensjahr). Nach Freud entsteht ein Großteil der Motivation menschlichen
Verhaltens aus dem unbewussten Konflikt zwischen den triebhaften Impulsen des Es und
dem strengen bewertenden Über-Ich (vgl. die Konzepte zur Abwehr & Sublimierung).
Nach Freud unterliegen auch manche Aspekte der Gesellschaft einer solchen Triebdynamik."

Traduzindo: "Nem Freud, interligando com mão forte os aspectos mentais, de menta,
da mancha pulsional, conseguiu deslaçar-se para sacar as pulsões dinamitosas.",

por aly . 5:18 AM .

Quinta-feira, Julho 16, 2009




LA REVANCHE DE FOUS LITTÉRAIRES

Ils vous expliqueront pourquoi l'Homme descend de la grenouille

Fous littéraires est un terme inventé par André Stas pour nommer ces êtres
à part, peu connus dans le monde de la littérature ou pire encore sujets de
moquerie, qui apportent pourtant un peu d'absurde et d'humour dans ce
monde de brutes.

André Stas est plasticien mais aussi cofondateur d'une revue dédiée aux fous
littéraires, les Cahiers de l'institut. Non pas un institut psychiatrique mais un
Institut international de recherches et d'exploration sur les fous littéraires,
ou IIREFL. Il déclare "Ils nous prouvent par l'absurde qu'on ne comprend rien
à rien. Et ils finiraient même par nous persuader, avec leurs idées fixes, qu'on
vit dans un monde inintéressant par rapport au leur".

Et des théories absurdes, les fondateurs de l'IIREFL en ont recensé bon nombre.
Une encyclopédie des brouettes, une Marseillaise pour les carottes, un précis de
communication avec les martiens, une méthode pour comprendre le langage des
animaux, ou la preuve par jeux de mots (s'il vous plaît) que l'Homme descend de
la grenouille.

L'auteur de cette dernière théorie Jean-Pierre Brisset, a lui été prisé. En 1913,
il a été élu Prince des penseurs et de grands auteurs comme Apollinaire, ou
encore des artistes comme Picasso l'ont lu et s'en sont inspirés à l'occasion.
Le grand Raymond Queneau a même tenté de faire reconnaître son oeuvre.

André Stas et le second fondateur de l'IIREFL, Marc Décimo (professeur de
linguistique à l'université d'Orléans) ainsi que Marc Ways (ancien libraire) ont
décidé de donner à ces gentils allumés du verbe une deuxième chance en
créant la revue les Cahiers de l'institut. Le premier numéro de celle-ci a été
tiré à 530 exemplaires.



Evento aberto aos loucos, insensatos, desajustados, doidos,
malucos, estúrdios, esquisitos, excêntricos, extravagantes,
brumosos, fetichistas, desatinados, alucinados, ensandecidos,
desvairados, lunáticos, aluados, avariados do juízo,
esconsos do miolo, paranóicos, nosomaníacos, licantropos,
desbolados, endemoninhados, exaltados, endiabrados, delirosos,
tresloucados, cismáticos, sandeus, desequilibrados, macabros,
desesperados, obsessos, hipocondríacos, visionários, quixotescos,
bizarros, heteróclitos, fissurados, sonhadores, marginais,
esquizofrênicos, patafísicos, aturdidos, sensitivos, hipersensíveis,
mórbidos, tantãs, lotófagos, devassos, perdulários, desregrados,
pirados, desgraçados, moluscos, bufões e, sobretudo, escritores,

por aly . 11:38 PM .

Sábado, Julho 11, 2009


— Primeiro nós fizemos terapia de casal, então tivemos você.

The New Yorker Cartoons: Terapia. Rio de Janeiro: Desiderata, 2009.
Escolha editorial, prefácio, introdução, posfácio, imprenta e colofão
de Sérgio Augusto.

"principio sin palabra,
piedra y piedra, sequía"
Octavio Paz in El Ausente,

por aly . 3:22 AM .

Terça-feira, Julho 07, 2009


JBS Mens Underwear: Women are equal to men!



"Somos, ao contrário do que é hábito dizer-se, não uma sociedade
de consumo, visada ao consumidor, mas uma sociedade de produção,
virada ao produtor e seus interesses." Agostinho da Silva,

por aly . 2:39 AM .

Sexta-feira, Julho 03, 2009


Foto de Jayne Mansfield por Nick Pipol: To Be, or Not to Be


Sabor a mí

Bolero de Álvaro Carrillo, 1959

Tanto tiempo disfrutamos de este amor
nuestras almas se acercaron tanto así
que yo guardo tu sabor
pero tu llevas también
sabor a mí.

Si negaras mi presencia en tu vivir
bastaría con abrazarte y conversar
tanta vida yo te di
que por fuerza tienes ya
sabor a mí.

No pretendo ser tu dueño
no soy nada, yo no tengo vanidad
de mi vida doy lo bueno
soy tan pobre, ¿qué otra cosa puedo dar?

Pasarán más de mil años, muchos más
yo no sé si tenga amor la eternidad
pero allá, tal como aquí
en la boca llevarás
Sabor a mí.


"Me preguntan que porque eres mi cachito
y yo siento muy bonito al responder
porque eres de mi vida un pedacito
a que quiero como a nadie de querer.

Cachito, cachito, cachito mío
pedazo de cielo que Dios me dio
te miro y te miro y al fin bendigo
bendigo la suerte de ser tu amor."

Bolero de Consuelo Velazquez e Álvaro Carrillo,

por aly . 4:47 AM .

Sábado, Junho 20, 2009




PRESENTES

Para mim quem bateu o recorde do incômodo e de aborrecimento por causa
de amigos foi aquele herói de Godofredo Rangel, a quem deram, num embrulho
de jornal, oitenta contos de réis para trazer de Minas e serem entregues a uma
firma daqui. O homem passou três dias sem poder comer, nem palitar os dentes,
nem pregar o olho. E no fim, ao contar o dinheiro, sob a vista desconfiada do
gerente, constatou que faltavam dois contos de réis.

Essa mania brasileira de mandar coisas por amigo em viagem, me beneficiou
agora com uma caixa de charutos especialmente enviada da Bahia pelo poeta
Odorico Tavares, sob o patrocínio casagrandesco de Gilberto Freyre.

À vista do que senti de agradável surpresa, compreendo a paciência dos que,
nos hotéis vertiginosos de hoje, amontoam vestidinhos, brinquedos, livros e até
pentes para regalo dos que no fundo de uma província esperam lembranças com
olhos antigos.

Esse Brasil ainda não acabou. E pode até suceder que, num avião a jato,
se mandem perus de recheio para a gula dos comilões do Natal.
Nesse caso eu também quero um.

Correio da Manhã – 26 de outubro de 1947

In Oswald de Andrade. Obras Completas – Telefonema.
São Paulo: Globo, 2007. (2ª edição aumentada)
Organização, introdução, posfácio e notas:
Vera Maria Chalmers.


"Filho único mimado pela mãe amazonense, generosa, afetiva e economicamente,
dando-lhe tudo para que se tornasse escritor, Oswald De Andrade é o homem da mulherofilia,
além do macho femeeiro em sua vida e obra. Viveu amores românticos com várias mulheres
e sem sovinice. Antecipou com Pagu nos anos 30 a Nouvelle Vague godardiana na mescla de
lirismo com política, que continua em A Morta. Sua antropofagia é a denúncia do machismo
patriarcal arraigado na sociedade brasileira. Cultura só para homens. É enganosa a fofoca
de ter sido machão comedor, voraz e compulsivo, por causa do lema "bom estômago
e pau duro". Em sua crítica à ideologia fálica capitalista delineia-se a unidade orgânica entre
o sol, o trópico, a floresta, o matriarcado, projetando o útero como divisa lúdica do Estado-Mãe
na América do Sul, ou seja, uma sociedade antípoda do "utilitarismo mercenário e mecânico
do Norte". Gilberto Vasconcellos, em obra ainda inédita em livro: Sol Oswald:

http://www.gradiva.com.br/site/scripts/gilberto.htm
http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/19/artigo113361-1.asp
http://1.bp.blogspot.com/_BpQ0Csl7Poc/SfzL7ktkKqI/AAAAAAAAALk/8NJwPDBDrYk/s1600-h/
fsp_ilustrada_1981_03_06_+gilberto_vasconcellos
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http://2.bp.blogspot.com/_BpQ0Csl7Poc/SfusD_BBylI/AAAAAAAAALU/ha9efKiweC4/
1600-h/fsp_ilustrada_1981_04_17_gilberto_vasconcellos_como_pode_peixe_vivo_viver
_fora_da_lagoa.jpghttp://3.bp.blogspot.com/_BpQ0Csl7Poc/SfpoaL3-zaI/AAAAAAAAAK4/Wi3
UgVq_oIU/s1600-h/fsp_ilustrada_1981_04_24_gilberto_vasconcellos
_os_anjos_reacionarios.jpg

por aly . 1:26 AM .

Segunda-feira, Junho 15, 2009




Cabral recebe em Genebra, um dia, a visita de Vinicius de Moraes, que passa
uma temporada de trabalho em Paris para escrever o roteiro do filme Arrastão.
Vão a um bar e Vinicius, logo, saca seu violão e começa a desfiar suas últimas
composições.

Cabral se irrita com o sentimentalismo do amigo. "Me desculpe, Vinicius",
interrompe, "mas por que todas as tuas músicas falam de coração. Será
que você não tem outra víscera para cantar?"

Vinicius de Moraes, como sempre, não perde a pose: "Pois é João, você
continua o mesmo nordestino seco. Mas, um dia, ainda hei de colocar
música em um desses teus poemas de cabra", ameaça. A praga jamais
foi cumprida.

Chico Buarque de Hollanda só consegue musicar Morte e Vida Severina
porque o faz sem que Cabral o saiba. Só depois de ter a melodia pronta,
o jovem Chico a exibe ao poeta. "Se ele tivesse me pedido autorização
antes", Cabral confessa depois, "eu teria respondido: 'Nem tente'."

In José Castello. João Cabral de Melo Neto: O homem sem Alma
& Diário de Tudo
. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.


"O livro mais doloroso e pungente que li nos últimos anos foi o
autobiográfico Retrato do Artista quando Velho, de Joseph Heller.
Não tinha ainda lido o livro de José Castello. Agora, estou certo
de que o livro mais doloroso e pungente que me caiu às mãos
nos últimos anos é João Cabral de Melo Neto: O Homem sem Alma".
Silviano Santiago,

por aly . 11:03 AM .

Segunda-feira, Junho 01, 2009


A primeira pisada na Lua, por Neil Armstrong, 20 de julho de 1969: 23h56m, hora de Brasília


Notice

A la misma hora,
más o menos,
que el señor Neil Armstrong,
astronauta norteamericano,
ponia los pies, por vez primera,
sobre la superficie de la luna,
mi mujer y yo,
en pijama,
matábamos a escobazos
un ratoncillo
que se nos habia metido
en la habitación,
al anochecer,
y que hasta entonces
no habiamos conseguido
localizar.

Miquel Martí i Pol in Poemas.
Revista Hora de Poesia: 55-56,
Enero-Abril, Barcelona, 1988.
(Tradução do catalão para
o castelhano: Albert Tugues)


"É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco
salto para a Humanidade". Neil Armstrong, ao pisar na Lua
em 20 de julho de 1969,

por aly . 2:37 AM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





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14 novembro 2002



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