Sábado, Agosto 02, 2008
ANTES...
E DEPOIS...
"Se se ganha dinheiro, o cinema é uma Indústria.
Se se perde é uma Arte." Millôr Fernandes,
por aly . 1:04 AM .
Sábado, Julho 26, 2008
Avec de:
Na versão rap e aqui com Pete Seeger no banjo, neste blog infantojuvenicida,
por aly . 5:16 AM .
Sexta-feira, Julho 18, 2008
Photo de Phillip Toledano::: Diana de Éfeso
SEI OS TEUS SEIOS
Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?
Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...
Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.
Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...
O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.
In Alexandre O'Neill. Poesias Completas.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
"A mão que me sustenta e eu sustento
é mão capaz das vinte e cinco linhas
e do selado azul de um requerimento
ou doutras diligências comesinhas..."
Alexandre O'Neill,
por aly . 1:56 PM .
Sábado, Julho 12, 2008
Foto de Mário de Andrade por B.J. Duarte, 1930
Dizem que sou modernista e... paciência! O certo é que jamais neguei as
tradições brasileiras, as estudo e procuro continuar a meu modo dentro delas.
É inconstestável que Gregório de Matos, Dirceu, Álvares de Azevedo, Casimiro
de Abreu, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Bilac ou Vicente de Carvalho
são mestres que dirigem a minha literatura. Eu os imito.
O que a gente carece é distinguir tradição e tradição. Tem tradições móveis
e tradições imóveis. Aquelas são úteis, têm importância enorme, a gente as
deve conservar talqualmente são porque elas se transformam pelo simples
fato da mobilidade que têm. Assim por exemplo a cantiga, a poesia, a dança
populares.
As tradições imóveis não evoluem por si mesmas. Na infinita maioria dos casos
são prejudiciais. Algumas são perfeitamente ridículas que nem a "carroça" do
rei da Inglaterra. Destas a gente só pode aproveitar o espírito, a psicologia e
não a forma objetiva.
A tolice básica da arquitetura "neo-colonial" está nisso: pegaram, a maioria,
nas formas decorativas coloniais, reduziram elas a fórmulas, que ajuntaram
rastaqüeramente, dentro do espírito de arrivismo que domina as partes
progressistas do país. O resultado foi que 89 por cento das feitas são
aleijões medonhos.
Mário de Andrade in O Turista Aprendiz: Viagens pelo Amazonas até
o Peru, pelo Madeira até a Bolívia, por Marajó Até Dizer Chega*.
São Paulo: Duas Cidades, 1976.
Estabelecimento de texto, introdução e notas por Telê Porto Ancona Lopez.
*Nota d'aly:
O título do livro acima era como Mário de Andrade nomeava os escritos
sobre suas andanças pelo norte do Brasil, aos que a editora desta edição
somou outras perambulações pelo nordeste e o intitulou O Turista Aprendiz.
Peço licença à editora da liberdade de citar este livro pela nomeação de parte
dele, com o intento de saborear seu primeiro título, da prima viagem de Mário
pelas terras (e muitas águas) setentrionais do Brasil.
"O desarranjo exterior, essa espécie de desânimo que só
espera notícias, isso ainda não me faria muito mal, o pior
é assim o ar de estrépito da minha psicologia assombrada."
Mário de Andrade,
por aly . 1:14 PM .
Domingo, Julho 06, 2008
Shalom Harlow em foto de François Nars: Snow White and the Seven Dwarfs, 2007
ERA UMA VEZ...
Uma linda princesa chamada Branca de Neve, cuja beleza desabrochava
dia-a-dia, causando inveja em sua madrasta, a rainha. Todos os dias, a
rainha perguntava ao seu Espelho Mágico quem era a mulher mais bela
do reino. Enquanto o espelho respondia que sua beleza reinava suprema,
tudo corria bem.
Até o dia, contudo, que o espelho respondeu à habitual pergunta com
uma revelação: "Branca de Neve é a mais bela do reino", um fato que
também já havia chamado a atenção de um atraente príncipe.
(E por aí vai a sinopse da Walt Disney Productions Inc. Company S.A.)
"O mundo não dá a ninguém inocência nem garantia." João Guimarães Rosa,
por aly . 6:43 AM .
Terça-feira, Julho 01, 2008
Ilustração de Gabriel Moreno
BOTÂNICA
À Maria Christina Menezes
Para quem ama,
estrada estéril,
vale o cordial
buquê da amada.
aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)
"Eu vim para entregar esta carta."
Charlotte Corday em Perseguição
e Assassinato de Jean-Paul Marat
de Peter Weiss,
por aly . 6:07 PM .
Terça-feira, Junho 24, 2008
Phillipe de Fesse: Bonne Année, 2007
O VINHO
As redondezas do vinho. As asperezas do vinho.
As veleidades do vinho. As veludezas do vinho.
As calorias do vinho. Os labirintos do vinho.
As branquidades do vinho. As verdolências do vinho.
As rosaledas do vinho. As inverdades do vinho.
As bordalesas do vinho. As borgonhesas do vinho.
As fluidezas do vinho. As espessuras do vinho.
Os jaguardentes do vinho. As águas duras do vinho.
As florisbelas do vinho. As florisfeias do vinho.
Os operários do vinho. As excelências do vinho.
As sonolências do vinho. Os maremotos do vinho.
Murilo Mendes: Convergência, 1963-1966.
In Poesia Completa e Prosa. RJ: Nova Aguilar, 1995.
Vinum et mulieres apostatare faciunt sapientes. [Vulgata, Eclesiástico 19.2]:
"A mulher e o vinho fazem errar o caminho",
por aly . 7:28 PM .
Quarta-feira, Junho 18, 2008
Machadinho, circa 1862
Jornal admirável esse Diário do Rio de Janeiro, bem impresso, bem redigido,
com ótima colaboração. Não espanta que fosse bem redigido: os anúncios,
as pequenas notícias, os fatos diversos eram escritos ou corrigidos por
Machado de Assis, cujo estilo, já nesse tempo, se distinguia por nítido e limpo.
Muito mais limpo do que a caligrafia onde se lhe expandia o nervosismo em
rabiscos incríveis, em borrões de todos os feitios. A desordem de seus
manuscritos, que só saíam à custa de dedos manchados de tinta e inúmeras
penas quebradas, chegou a tal ponto que contra ela se revoltaram os revisores
do jornal, vendo-se o novo redator obrigado a aprender a escrever com um
especialista, o calígrafo americano Guilherme Scully.
Lúcia Miguel Pereira in Machado de Assis: Estudo Crítico e Biográfico.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1955 - 5ª ed. Com 15 ilustrações fora do texto.
"Não há propósito contra a necessidade." M. de Assis em Esaú e Jacó,
por aly . 2:17 PM .
Terça-feira, Junho 10, 2008
Yoshikuni: Bat and Full Moon
Amorcego
Quando te encontro
cego-me e te pego
manso como um
morcego.
No teu pescoço grudo,
o teu sangue sugo,
teus reclamos ouço?
Amor surdo e cego.
aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)
Morcegas?
por aly . 10:49 AM .
Sexta-feira, Junho 06, 2008
Hans Staden (o de barba, revoltado): Viagem ao Brasil, 1557
L'AFFAIRE SARDINHA
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia.
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente.
In Os Melhores Poemas de José Paulo Paes.
São Paulo: Global, 2003.
Seleção e Prefácio de Davi Arrigucci Jr.
Sobre Tupinambás: "As mulheres vivem em boa harmonia umas com as outras.
Entre os selvagens é costume um dar de presente a outro uma mulher, quando
dela se enfada." Hans Staden,
por aly . 6:59 PM .
Sexta-feira, Maio 30, 2008
Café, por Robert Crumb: 1996
"O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo
que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o
driblo, saboreando, junto com ele, o cheiro das
torradas-na-manteiga que alguém pediu na mesa
próxima." Mário Quintana,
por aly . 1:11 AM .
Domingo, Maio 25, 2008
Foto de Antonio de Almoedo: Quizás, quizás, quizás...
SONETO
Debalde um véu cioso, ó Nise, encobre
Intactas perfeições ao meu desejo;
Tudo o que escondes, tudo o que não vejo,
A mente audaz e alígera descobre.
Por mais e mais que as sentinelas dobre
A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,
Teus braços logro, teus encantos bejo
Por milagre da ideia afoita e nobre.
Inda que prémio teu rigor me negue,
Do pensamento a indómita porfia
Ao mais doce prazer me deixa entregue.
Que pode contra Amor a tirania,
Se as delícias, que a vista não consegue,
Consegue a temerária fantasia?
Manuel Maria l'Hedoux Barbosa du Bocage
in Opera Omnia. Lisboa: Bertrand, 1969 -
volume I: Sonetos.
(Prefácio, preparação do texto e notas
de Hernâni Cidade)
"Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão, e a Morte."
Bocage,
por aly . 6:27 AM .
Sexta-feira, Maio 16, 2008
Foto de Zygmunt Ferentzi: Como Era Gostosa a Minha Mãe!
COMPLEXO DE ÉDIPO
D.: Ödipuskomplex – F.: Complexe d'Œdipe – En.: Oedipus Complex -
Es.: Complejo de Edipo – I.: Complesso di Edipo
Conjunto organizado de desejos amorosos e agressivos que a criança
experimenta relativamente aos pais. Sob a sua chamada forma positiva,
o complexo apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da
morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela
personagem do sexo oposto.
Sob sua forma negativa apresenta-se inversamente: amor pelo progenitor
do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto.
O complexo de Édipo desempenha um papel fundamental na estruturação
da personalidade e na orientação do desejo humano.
In J. Laplanche e J.-B. Pontalis. Vocabulário da Psicanálise.
São Paulo: Martins, s/d. 6ª edição. (excertos)
"No primeiro tempo, temos a relação da criança com o desejo da mãe. É um desejo
de desejo. O falo é um objeto metonímico do desejo da mãe. Em virtude da existência
da cadeia significante, ele circula de todas as maneiras, como o anel no jogo de passa
anel, por toda parte do significado." Jacques Lacan,
por aly . 5:25 PM .
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Foto de Fran Herbello: El Dia Que Me Quieras
LÍNGUA
Sem querer, ultrapassei a fronteira dos dentes
dela e engoli sua língua ágil. Agora a língua vive
dentro de mim, como um peixe japonês. Roça
no meu coração e no meu diafragma como se
eles fossem as paredes de um aquário. Levanta
sedimentos do fundo.
A mulher que privei de voz fixa os olhos grandes
em mim e aguarda uma palavra.
Porém não sei que língua usar ao dirigir-me a ela
- se a que roubei ou a que derrete em minha
boca por excesso de bondade pesada.
Zbigniew Herbert in Revista Piauí nº 20
- Maio de 2008.
Tradução de Paulo Henriques Britto
"A poesia de Zbigniew Herbert acrescenta à biografia da
civilização a sensibilidade um homem que não foi derrotado
pelo século que empreendeu, da forma mais completa e
eficiente, a desumanização da espécie humana. A ironia de
Herbert, sua discrição austera e sua compaixão, a lucidez
de seu lirismo, a intensidade de seu amor pela antiguidade
clássica, não são apenas ornamentos exibidos por um poeta
moderno, e sim a armadura - no seu caso, de aço bem
temperado e reluzente – de que o homem precisa para não
ser esmagado pelas investidas da realidade. Como não
oferece a seus leitores concessões estéticas nem éticas, esse
poeta os salva daquela pobreza que serve tão bem a todas
as formas do mal." Joseph Brodsky
"O inferno nos conhece, é a vida do dia-a-dia."
Jacques Lacan: Le Séminaire XVI,
por aly . 2:13 AM .
Segunda-feira, Abril 28, 2008
Foto de Albert de Culot
Nota d'aly:
O meu hospedeiro de imagens XPG Extreme WebHosting,
http://www.xpg.com.br/home/, suspendeu minhas imagos;
à exceção de três (tereis?) - que postei por outro provedor;
sem aviso prévio & mais nada. Estou providenciando outro
hosting, como eles dizem e nos deixam como o cidadão
acima.
Pospost: Sábado, 10 de maio de 2008
Plus ça change, plus c'est la même chose,
por aly . 1:49 AM .
Quinta-feira, Abril 24, 2008
De Rosa Maria: A Arte de Comer Bem. RJ: Officina Industrial Graphica (1ª ed. - 1933)
Receita (malograda) de lombinho de porco à mineira,
escrita a pedido, para um livro de culinária que não
foi publicado:
Olhe, Maluh de Ouro Preto:
mineiro sou, mas fraquinho.
Se não botava em soneto
a receita de lombinho.
De porco, bem caprichado,
que em Minas ninguém recusa
quando se apresente, assado,
à mesa, e conforta a musa.
Pimenta-do-reino, é claro,
e sal poria em meu verso,
alho (para um sabor raro)
e limão (outro diverso).
Quando saísse do forno
a carne - alvura macia -
dar-lhe-ia como adorno
áurea farofa... Sorria,
Maluh, pois que, em verdade,
devo confessar, baixinho,
com toda a sinceridade:
não sou de comer lombinho.
Carlos Drummond de Andrade
Nota d'aly:
Este poema-receita de Drummond, com prologuinho do autor,
não consta da edição da Nova Aguilar, Poesia Completa de CDA,
2002. Está num recorte* de jornal colado à página de rosto do
livro de receitas de Rosa Maria, A Arte de Comer Bem (obrigado,
Rosa Maria), que foi uma das fontes dos poderes culinários &
alquímicos de dona Anita, matriarca dos alys.
*Do recorte: Correio da Manhã (RJ), 30 de Março de 1968.
"O destino das nações depende do modo como elas se alimentam." Brillat-Savarin,
por aly . 5:56 AM .
Quinta-feira, Abril 17, 2008
Bedroom Windows by Arthur Adlon: Softcover Library, 1965 (pulp fiction*)
É possível estabelecer relação entre a prática
psicanalítica e o trabalho do detetive?
Os dois possuem como ponto de partida a recusa
do dado, aquilo que se apresenta como verdadeiro
porque tido como evidência sensível, como certeza.
Mas o dado sensível é uma ilusão. Todo dado já é
um constructo. Daí, toda certeza sensível ser
ilusória.
O psicanalista e o detetive, e eu também
incluiria aqui a figura do filósofo, empreendem a
busca de uma verdade que está para além do dado
imediato. São práticas da suspeita. Mas, enquanto
os conceitos científicos são feitos de idéias claras
e distintas, os signos psicanalíticos são compostos
de obscuridade, ocultamento, tropeços, falhas,
esquecimentos. A ciência trabalha na plena luz das
suas idéias; a psicanálise, nas sombras e
obscuridades do desejo.
Luiz Alfredo Garcia-Roza em entrevista ao Estadão:
Caderno Aliás, Domingo, 13 de abril de 2008
*Nota d'aly:
O melhor da pulp fiction está consagrado em suas capas:
aqui e aqui.
"Nada é tão traiçoeiro como o óbvio." Joseph Schumpeter,
por aly . 12:59 AM .
Sexta-feira, Abril 11, 2008
L'Amour et Psyché por Baron François-Pascal-Simon Gérard, 1798: Musée du Louvre
O que quer dizer amar alguém? É sempre apreendê-lo numa massa,
extraí-lo de um grupo, mesmo restrito, do qual ele participa, mesmo que
por sua família ou por outra coisa; e depois buscar suas próprias matilhas,
as multiplicidades que ele encerra e que são talvez de uma natureza
completamente diversa. Ligá-las às minhas, fazê-las penetrar nas minhas
e penetrar as suas. Núpcias celestes, multiplicidades de multiplicidades.
Não existe amor que não seja um exercício de despersonalização sobre
um corpo sem orgãos a ser formado; e é no ponto mais elevado desta
despersonalização que alguém pode ser nomeado, recebe seu nome ou
seu prenome, adquire a discernibilidade mais intensa na apreensão ins-
tantânea dos múltiplos que lhe pertencem e aos quais ele pertence.
In Gilles Deleuze & Félix Guattari. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. Vol. I, p. 49
"Curva-te apenas para amar." René Char,
por aly . 5:10 PM .
Sábado, Abril 05, 2008
Arte de Hans Wurst: Da Disposição das Coisas no Mundo - salsichas sobre prato - 2008
COMPLEXO DE CASTRAÇÃO
D.: Kastrationskomplex - F.: complexe de castration – En.: castration complexe
Es.: complejo de castración – I.: complesso di castrazione
Complexo centrado no fantasma (fantasia) de castração, que vem trazer uma
resposta ao enigma posto à criança pela diferença anatômica dos sexos
(presença ou ausência de pênis): essa diferença é atribuída a um corte do pênis
da criança do sexo feminino.
A estrutura e os efeitos do complexo de castração são diferentes no menino e na
menina. O menino teme a castração como realização de uma ameaça paterna em
resposta às suas atividades sexuais, do que lhe advém uma intensa angústia de
castração. Na menina, a ausência do pênis é sentida como um dano sofrido que
ela procura negar, compensar ou reparar.
O complexo de castração está em estreita relação com o complexo de Édipo, e
mais especialmente com sua função interditória e normativa.
In J. Laplanche e J.-B. Pontalis. Vocabulário da Psicanálise.
São Paulo: Martins, s/d. 6ª edição.
"Na doutrina freudiana, o falo não é nem uma fantasia (no sentido de um efeito imaginário),
nem um objeto parcial (interno, bom, mau), nem tampouco o órgão real, pênis ou clitóris."
Jacques-Marie Émile Lacan,
por aly . 2:25 PM .
Segunda-feira, Março 31, 2008
Erwin Olaf: Paradise Portraits, 2001
Nenhuma melancolia é maior que uma melancia
Poema de Florivaldo Menezes, aqui
"Evidente que meu poeminha é homenagem a Cabral, para quem um abstrato (melancolia) era
menos importante que uma concreta melancia... e esta palavra está, visualmente, sem excesso,
toda contida dentro daquela. Daí o hipo-ícone verbivisual. Quanto ao hipo-ícone verbivisual,
é aquilo que Peirce chamava de vizinhança com o representado no significado, mas por
via de ilusão do continente, manipulado mais por quem olha do que pelo objeto olhado.
Quando dou, talvez cabotinamente, meu poema homenagem a João Cabral, de uma só linha
("Nenhuma melancolia é maior que uma melancia"), como exemplo desse tipo de
ícone, dou-o como exemplo de um hipo-ícone vizinho dos trocadilhos visuais, (meu
“Relações Anteriores" / cara do Magalhães Pinto no joelho de minha mulher, livro sem título
(“In Verso” no prefácio de Ronaldo Azeredo), Edições Invenção, 1972 e que hoje já pode
ser visto também em meu site www.asdfg-menezes.org, cf. ícone no frontispício do site) e
que já são conhecidos, com esse expresso nome, desde a época de certas gags de Harold
Lloyd, conforme se vê da coleção em vídeo-laser "Hollywood - a Celebration of the
American Silent Films", Thames Video Collection / Image Entertainment, LaserDisc, seven
disc set, side 8 / Harold Lloyd. Afora terem sido pespegados, na literatura, em certos poemas
de configuração caligrâmica até da poesia barroca e preciosa." Florivaldo Menezes,
por aly . 2:57 AM .
Quarta-feira, Março 26, 2008
Ilustração de Gèraldine Georges:::Dog's Love
A dor do enlouquecimento pulsional
"Esse enlouquecimento da bússola interior."
Marcel Proust
Assim como se acredita, erradamente, que a sensação
dolorosa causada por um ferimento no braço se localiza
no braço, também se acredita, erroneamente, que a dor
psíquica se deva à perda da pessoa do ser amado.
Como se fosse a sua ausência que doesse.
Ora, não é a ausência do outro que dói, são os efeitos em
mim dessa ausência. Não sofro com o desaparecimento
do outro. Sofro porque a força do meu desejo fica privada
de uma de suas fontes, que era o corpo do amado; porque
o ritmo simbólico dessa força fica quebrado com o
desaparecimento do compasso que os estímulos provenientes
daquele corpo escandiam; e depois porque o espelho psíquico
que refletia as minhas imagens desmoronou, por falta do apoio
vivo em que sua presença se transformara.
A lesão que provoca a dor psíquica não é pois
o desaparecimento físico do ser amado, mas
o transtorno interno gerado pela desarticulação
da fantasia do ser amado.
In J.- D. Nasio. A Dor de Amar
Rio de Janeiro: Zahar, 2007
(excerto do capítulo)
Não há remédio contra a dor de amar; a não ser os tradicionais:
escalda-pés; compressas; chá de hortelã ou de cidreira; mezinhas
ou garrafadas; álcool canforado ou de botequim,
por aly . 4:09 AM .
Quinta-feira, Março 20, 2008
Fotomix de Erwin Olaf: Paradise The Club, 2001
ODES I,11 (CARPE DIEM)
Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
o astrólogo caldeu:
não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
- prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
a tua vida breve.
Só o presente é verdade, o mais promessa.
O tempo enquanto discutimos, foge:
colhe o teu dia, - não o percas! – hoje.
Horácio (65-8 a. C.)
In Horácio: Odes e Epodos. São Paulo: Martins Fontes, 2003
Tradução: Bento Prado de Almeida Ferraz (pai)
Organização: Anna Lia Amaral de Almeida Prado
Introdução: Antonio Medina Rodrigues
"Nada acrescente, pois, ao simples mirto,
zeloso servo! Ele a ambos nós convém:
a ti, servindo; a mim, sob a parreira,
calmo, bebendo."
Horácio: Odes I, 38,
por aly . 3:23 AM .
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